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Médicos tiram férias em julho, quando o clima deixa unidades lotadas

Por Juliana Franco | Com Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 5 min

É só a temperatura cair e o clima ficar seco para as unidades básicas de saúde e as de urgência e emergência de Bauru lotarem. O aumento de pacientes no período é de no mínimo 15%, segundo a própria administração municipal informa há anos. As condições climáticas perpassam tanto o outono, quanto o inverno - período que também coincide com as férias do meio de ano, quando muitos médicos aproveitam para gozar o benefício. O resultado é previsível: posto de saúde sem médicos e pessoas insatisfeitas.

Quem buscou atendimento nas unidades básicas de saúde do Núcleo Mary Dota, do Núcleo Beija-Flor e do Núcleo Gasparini, na manhã de ontem, voltou para casa sem passar pelo médico.

A reportagem do JC esteve nas três unidades de saúde e constatou que em dois deles o aviso da falta de profissionais estava pregado na porta. Numa outra unidade básica de saúde, sem qualquer reclamação dos usuários, quatro dos 11 médicos estão em férias, ou seja, 36% dos especialistas.

Já no caso do núcleo de saúde do Mary Dota, houve queixa. Apenas um clínico geral trabalhou na manhã de ontem e um cartaz, colocado na entrada do prédio, indicava que durante todo o dia não haveria pediatra, ginecologista e ortopedista para atendimento.

A professora Márcia Madureira Coutinho, chegou ao núcleo de saúde às 5h à procura de um clínico geral, mas foi embora sem atendimento. “As atendentes disseram que existem três médicos em férias e que, talvez, um clínico atenda na quarta-feira. Isto é um descaso. O posto não tem pediatra há mais de um mês”, conta.

“Há cerca de dois anos, eles fecharam o pronto-socorro do bairro com a promessa de melhorar o atendimento no posto, mas nada mudou. Para conseguir consulta, é preciso chegar de madrugada e enfrentar fila. A saúde está abandonada”, desabafa.

No núcleo de saúde do Beija-Flor, funcionários informaram que apenas um pediatra atendia na manhã de ontem. De acordo com a escala, clínico geral deve atender apenas na sexta-feira. No núcleo de saúde do Núcleo Gasparini, a situação era ainda mais complicada. A reportagem do JC apurou que não havia nenhum médico para atender os pacientes na manhã de ontem.

Faltam médicos

A situação é complicada porque, mesmo fora do período de férias, a rede municipal sofre, historicamente, com a escassez de médicos. Faltam profissionais para várias especialidades.

Para a coordenadora do núcleo de saúde da Vila Dutra, Rose Lopes, que também é tutora em Atenção Básica pelo Ministério da Saúde e Facilitadora do Sistema Único de Saúde (SUS), o problema está diretamente ligado à grade salarial. A coordenadora afirma que o valor pago pela prefeitura de Bauru é um dos menores do Estado de São Paulo.

“Por isso, muitos médicos vão para cidades menores da região, que pagam melhor, como Agudos, Jaú e Piratininga. Na minha opinião, o Conselho Nacional de Medicina deveria estudar junto ao Ministério da Saúde uma grade salarial para o médico, o mínimo para a categoria”, revela.

Rose ainda aponta como problema o fato do SUS se basear apenas na alopatia. “O posto de saúde trabalha na prevenção. Nesta área poderia ter prevenção alternativa, como tratamentos com acupunturistas e homeopatia”, opina.

“Hoje, o tratamento depende principalmente do clínico geral e ele não tem acesso a todos os exames para dar um diagnóstico ao paciente. Muitas vezes, ele precisa encaminhar o paciente para o especialista ou para o Pronto-Socorro Central (PSC), senão o doente fica mais de seis meses para conseguir um exame”, conclui.

Ela entende e defende o direito do profissional às férias, mas acredita que a secretaria deva conceder o benefício levando em conta uma escala estabelecida de forma que os usuários não sejam prejudicados.

“Em abril esse problema foi colocado na pauta de discussão do Ministério Público para que o secretário municipal de Saúde apresentasse um plano para evitar demora no atendimento de urgência e emergência no Pronto-Atendimento Infantil (PAI) e no PSC, mas não foi apresentado nada.

Os médicos já conhecem as características desse período. É justamente nele que aumenta a incidência de mortes por gripe e pneumonia. Por isso tem a campanha nacional de vacina antigripal para idoso. Isso sem contar o H1N1”, conclui.

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Problema localizado

Para o secretário municipal da Saúde, Fernando Monti, a falta de médicos nas unidades básicas de saúde em virtude das férias é um problema localizado. De acordo com ele, 16% dos profissionais estão gozando do benefício atualmente. O percentual, diz, não é muito diferente dos demais meses do ano. Em outros períodos, a média é de 10% dos médicos do quadro da rede municipal de saúde descansando, índice que é considerado razoável pelo titular da pasta de Saúde.

Segundo Monti, a escala de férias deste ano ainda é herança da gestão anterior. Como devem ser agendadas com antecedência – porque os profissionais programam viagem – foram estabelecidas há cerca de um ano. Para 2010, a expectativa do secretário de Saúde é que a escala seja aperfeiçoada. Ainda assim, para Monti, atualmente o número de médicos na rede municipal é muito maior que anteriormente.

Ingressaram na rede municipal de saúde cerca de 20 novos profissionais aprovados em concursos recentes. A dificuldade é que, ainda assim, a Secretaria Municipal de Saúde não conta com número de profissionais o suficiente para substituir os que estão em férias. A situação pode ser alterada, na avaliação de Fernando Monti, com o plano de cargos e salários em elaboração pela pasta. Com ele, a expectativa é tornar concursos mais atrativos.

Monti também questiona o aumento de pacientes nas unidades básicas de saúde neste período do ano. Infectologista, quando tinha consultório, nunca percebeu esse comportamento. Ele não descarta que o aumento na demanda de atendimento seja por conta da preocupação com o Influenza A (H1N1), a gripe suína.

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