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Heroísmo oculto

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

Não conhecemos estatística que diferencie os crimes e demais atos lesivos às pessoas e às instituições, cometidos por indivíduos sabidamente bandidos daqueles praticados por pessoas supostamente corretas. Homicídios, assaltos, roubos, negócios fraudulentos, tráficos de drogas, de animais e de moças para prostituição, corrupções no governo, nas ONGs e nas empresas dominam o noticiário de todos os dias. Para o pessoal da imprensa, essas coisas já nem possuem mais o sabor de notícia. São apenas repetições. Basta atualizar o texto com data, nomes e locais. As novidades ficam para as personagens que deixam cair a máscara ao serem surpreendidas pelo jornalismo investigativo, uma modalidade que surgiu e vem crescendo exatamente porque entre os lobos identificáveis estão os vestidos com pele de cordeiro.

Essa mistura de criminosos comuns com aqueles supostamente honestos, nesse dominante noticiário negativo, vem formando uma triste imagem da humanidade. São muitos os que dizem que o mundo está perdido, que não se pode mais confiar em ninguém, que não vale a pena ser honesto. Mas isso é apenas impressão e não a realidade. Felizmente, o número de pessoas boas é infinitamente maior do que o de pessoas ruins. É que o que as pessoas boas fazem só vira notícia quando o fato se caracteriza pelo que se convencionou chamar de heroísmo. O piloto americano que pousou o avião no rio Hudson, salvando a tripulação e todos os passageiros, foi considerado um herói, muito noticiado. A mãe que não sabia nadar e mergulhou na lagoa salvando o filho foi notícia como heroína. Neil Armstrong e seus companheiros astronautas, que foram à Lua há 40 anos, são os heróis da conquista espacial. Nelson Mandela é herói dos sul-africanos. Bombeiros e outros profissionais que arriscam a própria vida no salvamento de pessoas em perigo praticam atos heróicos. Aqueles que perderam a vida ou a sacrificaram para a liberdade dos povos são os heróis que formam a história das nações.

Fora do noticiário e da história, entretanto, existe um heroísmo oculto que em nada é inferior àqueles que são divulgados. É o heroísmo de pessoas que abdicam de confortos e prazeres e de aspirações em benefício dos outros, para minorar-lhes as dores ou para ajudá-los a realizarem-se. Quantas mães passam toda a vida trabalhando como lavadeiras ou faxineiras para que seus filhos estudem e venham a ter tudo o que elas não puderam ter, e mesmo terminando a vida num asilo dão graças a Deus por terem dado uma vida melhor a seus filhos. Quantos professores se apagam no anonimato e vivem a vida dura que o salário ou a aposentadoria insignificante permite, mas se sentem orgulhosos de verem seus ex-alunos brilhando como pessoas importantes e ricas. Quantos pais deixam de lado as suas aspirações para passar a vida toda cuidando de um filho inválido, sem qualquer palavra de queixume. Esposos e filhos de pessoas esclerosadas ou com Alzheimer, que se desvelam, com sacrifício próprio, para que elas sofram menos no final da vida, são exemplos de heroísmo que está oculto dos holofotes da imprensa.

Há médicos irresponsáveis e até criminosos, como há juízes venais, policiais que se rendem ao crime e funcionários corruptos, mas há milhões deles que fazem da profissão um verdadeiro sacerdócio. Há dirigentes de empresas e de instituições filantrópicas que desviam recursos para sua conta particular, mas há milhões deles que são mais zelosos com o patrimônio alheio do que com o seu próprio. Há delinqüentes de todos os tipos, mas a imensa maioria da população é formada de gente pacífica, ordeira e solidária. Do contrário, o mundo já teria acabado. No meio dessa multidão de gente boa, convivendo com gente má, encontra- se “um heroísmo obscuro, mas tão autêntico e belo como aquele que assinala os protagonistas das grandes façanhas perante a morte. É o heroísmo oculto dos que sabem viver, dia por dia, no círculo estreito das próprias obrigações, a despeito dos empecilhos e das provações que os supliciam na estrada comum”, como ensina Emmanuel. Que os bons são em número maior que os maus não se contesta, a não ser com uma exceção: entre os políticos somente a minoria é formada de gente boa.

O autor, Pedro Grava Zanotelli , é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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