Não é à toa que eles são os “segundos pais”. Contam histórias, participam de brincadeiras e estão sempre de prontidão para cuidar e encher seus netos de paparicos. E claro, é na casa dos avós que tudo pode e é permitido. Mas a figura dos avós como aqueles que atrapalham a educação dos netos, com tantos mimos e ausência de regras, que acompanhou os idosos por tanto tempo, está ficando cada vez mais para trás.
Hoje, quando se comemora o Dia dos Avós, não se pode esquecer que, muitos deles, deixaram de ser simplesmente avós para tornaram-se, de forma ativa e concreta, “pais” de seus netos. As transformações ocorridas no mercado de trabalho - que obrigam as mulheres a terem, cada vez menos funções exclusivamente domésticas - fizeram com que os idosos não apenas assumam o papel de pais, como sejam fundamentais na educação dos netos.
“Antes os avós eram o ‘playground’ das crianças. Nas últimas décadas, com as mudanças nas relações familiares e sociais, as mães têm que, cada vez mais, sair de casa para lutar pelo sustento de sua família. Isso faz com que os avós assumam um papel muito importante na educação das crianças, além de serem o grande socorro que os pais encontram: mediando e dividindo o educar de seus filhos com alguém em que eles confiam”, analisa o psicólogo Fernando Manuel Almeida Fernandes.
Esse é o caso de Sônia Aparecida de Freitas, 48 anos. Mãe de três filhas, a costureira divide com uma delas a criação da única neta. A pequena Manuela Costa, 4 anos, mora com a mãe e os avós, mas é com os últimos que passa a maior parte do tempo. “É minha mãe quem a leva e busca para escola e cuida dela durante todo o dia para eu trabalhar. É assim desde que a Manu nasceu”, conta Bruna Cristina Costa. “Apesar de mimar, como toda avó, ela não deixa a educação de lado e me ajuda muito nesse sentido”, completa.
Para Sônia, apesar de difícil, diz ser imprescindível assumir, de fato, o papel de “segunda mãe” da neta. “A essa altura, depois de ter criado as filhas, a gente não quer ficar dando bronca. Mas como ela mora comigo, eu crio como uma filha e não como uma neta”, comenta. Sônia, que não desistiu do sonho de ser, simplesmente, a “avó paparicadora”, conta que depositou as esperanças na outra filha. “Ela acabou de casar por isso ainda precisa de um tempo. Mas o netinho que ela um dia me dará, como não morará comigo, esse sim, eu vou apenas mimar”, confessa.
De acordo com o psicólogo, essa postura, diante do aumento da responsabilidade na educação dos netos, é fundamental. “Dizem que os netos são filhos com açúcar. Por já terem criado seus filhos, os avós tendem a virar defensores das crianças. Mas se ele vai cuidar da criança, o avô tem que tomar para si a autoridade e entrar em sintonia com os pais no objetivo comum de criação”, recomenda.
Para Fernandes, essa relação tem que ser pautada pelo diálogo. “Porque aquilo com meu pai não posso e com meu avô eu posso? Não se pode criar papéis em que um repreende, e o outro, apóia. Do contrário, a criança fica confusa e, pior, começa a negociar”, alerta.
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Valorização
Segundo o psicólogo Fernando Manuel Almeida Fernandes, o novo papel assumido pelos avós com os netos modifica ainda a relação dos jovens e de toda sociedade com o idoso, principalmente, no que diz respeito a sua valorização.
“Tomar para si o papel de avô educador, presente, faz com que o idoso retome o seu lugar de utilidade na sociedade que, muitas vezes, encara a terceira idade como pessoas que não servem mais para nada, que não têm nada a dizer, a contribuir”, considera.
Para Fernandes, essa pode ser apontada como uma das razões do grande entusiasmo que os idosos têm diante da chegada e do convívio com seus netos. “Cria-se mais expectativa com os netos do que com os filhos propriamente, porque eles representam a continuidade dos próprios filhos e a possibilidade de voltar a ocupar um papel de destaque na sociedade”, completa.
“Quando somos mãe, amamos nosso filho. Mas quando vem o neto, o amor é dobrado. A alegria é muito grande cada vez que você imagina o filho de um filho. É uma forma de se sentir viva e útil novamente”, afirma a avô Sônia Aparecida de Freitas.