Em seu mais recente trabalho, o cantor e compositor Nando Reis canta que “é preciso sonhar”. De fato, o sonho é o combustível que nos faz seguir adiante. Sem ele, nós estacionamos na vida. Entretanto, assim como um bom vinho, para tirar dele o que ele tem de bom é preciso não apenas bebê-lo, mas degustá-lo. Enfim, é preciso valorizar as conquistas e saber apreciá-las.
O ritmo da vida moderna, muitas vezes, não permite que isso aconteça. Com a correria que nos impomos no dia-a-dia a fim de atender às exigências da sociedade capitalista, não nos sobra tempo para a “degustação” das nossas realizações.
Para o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, atualmente impera a noção de que ter tempo livre é ter tempo desperdiçado. “Uma vida morosa, mais contemplativa, é visto como coisa de caipira, de quem mora em cidade pequena. Viver uma vida moderna é preencher o tempo com atividades que vão me levar mais perto da perfeição, que vão me satisfazer”, observa.
Segundo define Bertolli, do ponto de vista do capitalismo, uma pessoa moderna é aquela que está sempre em movimento. “Se eu estou em casa parado não estou produzindo nem consumindo. Ao passo que se eu fizer alguma coisa, como freqüentar cursos, ir ao cinema ou às compras, estarei consumindo mercadorias. De acordo com a lógica do capital, o indivíduo não pode ficar parado.
Ele só pode parar para recuperar as forças para voltar à linha de produção no dia seguinte. Quando não está produzindo, tem de estar consumindo.”
Para o antropólogo, é comum ver os adultos impondo essa mesma correria no dia-a-dia dos filhos. Segundo ele, não basta que a criança tenha aulas na escola, tem de fazer natação, capoeira, dança, ou seja, ter “mil e uma” coisas para fazer. “Você vai treinando o filho, desde pequeno, a empenhar todo o tempo em atividades. Esse consumo frenético do tempo bloqueia a reflexão”, afirma. Na avaliação dele, muitas pessoas nunca param para pensar porquê estão consumindo. Como conseqüência, vão enchendo os armários de casa com coisas que nunca são usadas.
Bertolli diz que é a mesma coisa com as viagens. “Tenho uma amiga que aproveita os 30 dias de férias para viajar por 20 países da Europa. O máximo que ela faz é tirar fotos. Ela não consome o passeio no sentido de estar lá, perceber como as pessoas vivem, apreciar o cenário, sentir como é o ambiente. Na verdade, você cria um simulacro. É a idéia de que eu consumi, sem ter consumido de verdade.”
Incompleto
Historicamente, o ser humano tem o costume de se sentir incompleto, de estar sempre insatisfeito. E boa parte dessa sensação, segundo Bertolli, acabou sendo canalizada para a aquisição de bens materiais, conquistas de cargos dentro de uma empresa e uma conta bancária cada vez mais gorda, entre outros desejos. Quanto mais eu adquiro, melhor eu me sinto.
“Quantos de nós, quando estamos deprimidos, vamos ao shopping comprar coisas?”, indaga ele. “Isso nos deixa feliz”, afirma. “As pessoas querem sempre mais para se satisfazer”, diz. O grande problema, segundo lembra o antropólogo, é que as mercadorias são sempre renovadas, seja por questões tecnológicas ou de moda. “Daí, o que eu tenho hoje parecerá obsoleto amanhã”, conclui.
Bertolli cita uma experiência vivida dentro da sala de aula que dá a dimensão de como as pessoas nunca estão contentes. “Uma aluna, certo dia, disse que estava satisfeita com a vida. Todo mundo olhou para a moça com ar de reprovação, como se perguntassem ‘como alguém pode estar satisfeito?’. Dentro da nossa cultura, a insatisfação tem de ser sempre declarada para que eu aja, compre mercadorias, me especialize em alguma coisa, melhore minha saúde. É aquela coisa do vir a ser. Tem sempre uma meta a ser atingida e nunca alcançada”, comenta.