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O dever da liberdade

Carlos Alberto Di Franco
| Tempo de leitura: 4 min

Acabo de ler o instigante livro de um colega no fascinante ofício de análise da mídia: A imprensa e o dever da liberdade, de Eugenio Bucci (Editora Contexto, São Paulo, 2009). Recomendo-o vivamente a todos os que se preocupam com a ética informativa, o papel da imprensa, a liberdade e as relações entre o jornalismo e o poder.

Bucci afirma, com razão, que “os jornalistas e os órgãos de imprensa não têm o direito de não ser livres, não têm o direito de não demarcar a sua independência a cada pergunta que fazem, a cada passo que dão, a cada palavra que escrevem.” “Os jornalistas devem recusar qualquer vínculo, direto ou indireto, com instituições, causas ou interesses comerciais que possa acarretar - ou dar a impressão de que venha a acarretar - a captura do modo como vêem, relatam e se relacionam com os fatos e as idéias que estão encarregados de cobrir.”

A independência é, de fato, regra de ouro. Mas não se confunde com o mito da neutralidade jornalística. A separação radical entre fatos e interpretações simplesmente não existe. É uma bobagem. Jornalismo não é ciência exata e jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza é anti-humana e, portanto, antijornalística. A neutralidade é uma mentira, mas a isenção é uma meta a ser perseguida. Todos os dias. A imprensa honesta e desengajada tem um compromisso com a verdade. E é isso que conta. Daí decorre o dever da liberdade.

Mas a busca da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, a falta de rigor e o excesso de declarações entre aspas.

O jornalista engajado é sempre um mau repórter. Militância e jornalismo não combinam. Trata-se de uma mescla, talvez compreensível e legítima nos anos sombrios da ditadura, mas que, agora, tem a marca do atraso e o vestígio do fundamentalismo sectário.

É necessário cobrir os fatos com uma perspectiva mais profunda. Convém fugir das armadilhas do politicamente correto e do contrabando opinativo semeado pelos arautos das ideologias. Bucci, com a precisão de um cirurgião do texto, lanceta inúmeros tumores e vai ao cerne da correta relação entre imprensa e poder. “Para melhor cumprir seu papel de levar informações ao cidadão, a imprensa precisa fiscalizar o poder –e o verbo fiscalizar carrega, aqui, o sentido de vigiar, de limitar poder. Sem ela, não há como se pensar em limites para o exercício do poder na democracia. Portanto, não é saudável nem útil a imprensa que se contente com o papel de apoiar os que governam. Não é saudável, não é útil, nem mesmo imprensa ela é”.

Um país não pode se apresentar como democrático e livre se pedir à imprensa que não reverbere os problemas do País. O governo Lula, no entanto, manifesta crescente insatisfação com o trabalho da imprensa. Para o presidente da República - um político que deve muito à liberdade de imprensa e de expressão-, jornalismo bom é o que fala bem. Jornalismo que apura e opina com isenção incomoda, irrita e “provoca azia”. Está, na visão de Lula, a serviço da “elite brasileira”. Reconheço, no entanto, que Lula não é um crítico solitário da mídia. Políticos, habitualmente, não morrem de amores pelo trabalho dos jornalistas. A simples leitura dos jornais oferece um quadro assustador do cinismo que se instalou na entranha do poder.

O que fazer quando o presidente da República chama senadores de pizzaiolos, faz graça com a corrupção e incinera a ética no forno do pragmatismo e da suposta governabilidade? O que fazer quando políticos se lixam para a opinião pública? Só há um caminho: informação livre e independente. Não se constrói um grande país com mentira, casuísmos e esperteza. Edifica-se uma grande nação, sim, com o respeito à lei e à ética. A transparência informativa, de que os políticos não gostam, representa o elemento essencial de renovação do Brasil.

Governos passam, mesmo quando navegam em mares de votos, mas as instituições democráticas ficam.

O autor, Carlos Alberto Di Franco, é diretor do Master em Jornalismo - www.masteremjornalismo.org.br -, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia - www.consultoradifranco.com - e-mail: difranco@iics.org.br

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