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Do que você está precisando?

Ângela Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Lidar com pessoas não é uma tarefa fácil. Aliás, talvez seja o grande desafio dessa vida: nascemos sozinhos, morremos sozinhos, mas entre uma coisa e outra temos que nos entender com centenas de pessoas. Se não conseguimos o que queremos, nem possibilitamos aos outros realizarem seus desejos, a convivência se torna quase insustentável. O problema é que a maioria pára na primeira parte: “eu quero”. Mas esquece da segunda: eu dôo. E uma não funciona sem a outra. Essa é a essência da liderança servidora, conceito que James C. Hunter trouxe - em muito boa hora e muito bem abordado - em “O Monge e o Executivo”, enfatizando que o “eu doo” é a principal ferramenta para conseguir o “eu quero”, principalmente para os líderes hoje. Digo de hoje porque já não cabe mais nas empresas a postura do chefe, aquele que apenas cobra, intransigentemente. É necessário enxergar em sua equipe quem tem o melhor potencial de certa tarefa ou outra e aproveitá-lo, sem exigir que ele dê aquilo o que não tem em si. É necessário fornecer ferramentas para que ele possa trabalhar adequadamente e você só atende às necessidades quando pergunta: “Do que você está precisando?” E, atendendo, você desperta no outro um quê de gratidão que fará com que ele, automaticamente, retribua a sua solicitude fazendo exatamente tudo o que você também precisa.

Parece manipulação porque as esposas de um século atrás driblavam a intransigência dos seus senhores dessa maneira: chinelinho na porta, prato feito na mesa, em troca da benevolência do marido, material ou moral. Mas analisemos: elas atendiam às necessidades deles e, assim, eles as delas. A mim não soa como manipulação, soa como uma relação de interdependência com bom resultado para ambas as partes. Ou seja, a essência da negociação, hoje tão discutida em seminários de liderança e negócios. Ou seja, para negociar bem , é necessário passar - mental ou verbalmente - pela frase “do que você está precisando?”. Nossas avós eram excelentes negociadoras e detalhe: sem gastar aquela verborragia que na verdade é uma briga de ego disputando quem sabe argumentar melhor. Um amigo me fez refletir bastante sobre essa questão certo dia, eu que era muito dada a verborragia também: “Você quer ser feliz ou quer ter razão?”, disse ele.

É claro que eu queria ter razão, mas ele estava certíssimo: vencendo a discussão, eu me sentia mal pelo colega ter ficado em situação ruim; perdendo a discussão, eu me sentia mal por não ter vencido. Ou seja, não dá pra ser feliz nessa competição desvairada. E pior: a melhor solução para o problema talvez não seja nenhuma das duas opiniões, pode ter ficado de fora da discussão, em uma clara demonstração de perda de tempo e energia. Não, realmente, o caminho é falar menos e perguntar mais: “Do que você está precisando?”. Nas relações familiares não é diferente. Os pais querem impor aos filhos o que devem fazer e cobram, diuturnamente. Os filhos tentam argumentar, explicar, discutir, e o resultado não é um acordo bom para os dois lados, é briga pelo poder. Mas essa relação pode ser muito mais gostosa se os pais perguntarem aos filhos, principalmente aos jovens, do que é que eles precisam. Fica mais fácil compreender um “não’” quando temos vontade de dizer sim, mas outras variáveis nos impedem. De mesma maneira, os pais podem conversar com seus filhos no mesmo tom: eu preciso da sua colaboração. Enfim, relacionar-se não é mesmo fácil, mas não custa tentar: ao seu chefe ou subordinado, pai ou filho, ao fornecedor ou cliente, você já perguntou hoje: “Do que você está precisando?”

A autora, Ângela Moraes, é jornalista, especialista em marketing estratégico. e-mail: anjeramoraes@hotmail.com

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