Tribuna do Leitor

Um grande guerreiro


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Era um egresso de um orfanato em Lins. Foi criado no meio de dificuldades financeiras. Ainda jovem e recém-casado deslocou-se de Lins para Curitiba. Eu o conheci lá, num encontro fortuito, num corredor de uma faculdade da Universidade Federal do Paraná. Procurávamos por aulas para lecionar, eu e minha esposa. Não estava muito fácil conseguí-las. Os curitibanos rejeitavam forasteiros, especialmente os oriundos do Estado de São Paulo. Sofremos rejeição por aqueles nascidos no Paraná. Éramos como dois estranhos no ninho alheio. Os curitibanos tinha ojeriza por paulistas porque a maioria ia para lá e vencia no que fazia. Corria o mês de janeiro de 1974.

Ele nos ajudou desde o início. Primeiro nos fez sair de um modesto hotel perto da rodoviária. Levou-nos para seu apartamento de um único quarto. Cedeu-nos sua cama de casal e foi dormir com a esposa na sala, num sofá-cama. Até arrumarmos um apartamento alugado permanecemos na companhia deles. Apresentou-nos o sr. Amadeu Ratiguieri, Assistente Social do INSS, também oriundo de Lins e pediu a ele que fosse nosso fiador no contrato de aluguel. Através deste mesmo Amadeu Ratiguieri, que também lecionava à noite, conseguimos aulas para mim e minha esposa. Fomos amparados pelo egresso de um orfanato em Lins desde o começo. Somos eternamente gratos a ele.

Tempos depois retornamos a Bauru. Ele, por sua vez, foi para São Paulo (capital) onde cursou faculdade e se formou um enfermeiro de alto padrão. Trabalhou em vários hospitais. Lutou na vida e venceu. Recentemente chegou a notícia, que apesar de muito triste, não me pegou de surpresa porque ele já vinha apresentando complicações advindas de um diabetes genético, mescladas com a doença de Chagas. O quadro clínico agravou-se e ele veio a óbito. Morreu, em seu apartamento em SP, dormindo. Deixou a esposa Helenice e as filhas Ana Paula, Lívia e Beatriz. Desta última fui padrinho de batismo. Descanse em paz, grande guerreiro, Francisco Tavares Salles.

Gilberto Sidney Vieira

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