Economia & Negócios

Juros do crédito pessoal são os mais baixos em 15 anos

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

A pesquisa mensal do Banco Central (BC) apontou que as taxas de juros para crédito pessoal e aquisição de veículos alcançaram, no mês passado, o menor nível desde 1994, quando a instituição iniciou o levantamento. A taxa média chegou a 36,7%, pouco menor que a média de junho do ano passado. Apesar da redução, as taxas ainda assustam e, para especialistas, ainda é necessário planejamento antes de pleitear linhas de crédito.

De acordo com o levantamento, os juros do crédito pessoal ficaram em 45,6% ao ano em junho, o que representa uma queda de 14,8% em relação ao praticado em dezembro de 2008. Já para financiamento de veículos, a taxa caiu 9,6% na mesma comparação, e em junho fechou a 26,9% ao ano. O saldo de crédito pessoal vinculado, especialmente as operações de crédito consignado, tiveram destaque. Segundo os dados do BC, os empréstimos dessa modalidade atingiram total de R$ 90,6 bilhões em junho.

Para o economista e professor de empreendedorismo, finanças e economia Adriano Fabri, a queda nas taxas de juros e a oferta de linhas de crédito devem atrair mais consumidores. Principalmente os que buscam adquirir carro zero quilômetro, impulsionados pela continuidade da redução do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI). “Como popularmente se diz, ‘juntou a fome com a vontade de comer’: carros mais baratos com taxas de juros mais baixas. E a taxa de juros é um dos fatores decisivox para a compra de veículos”, aponta Fabri.

Sobre os empréstimos pessoais, o economista pondera que não deve haver aumento na procura. “As pessoas não deveriam aumentar o consumo contando com empréstimos pessoais. Essa modalidade deveria ser usada como ‘socorro’, e não ser incorporada à renda para o consumo. Até porque, mesmo com a redução, ainda está caro. Pagar quase 46% de juros é onerar demais o orçamento, já que nossa inflação não chega a 6%”, observa.

Questionado sobre as projeções dos próximos meses, Fabri aconselha o consumidor que deseja adquirir um carro novo a ter cautela e planejar os gastos. “Para quem compra de forma calculada, analisando o presente e planejando, imaginando e calculando o futuro, pode aproveitar o momento e fazer um bom negócio”, afirma. Porém, o economista aconselha a fugir da tentação dos créditos pessoais. “Somente se for para quitar dívidas mais caras, como o cartão de crédito ou cheque especial. Tomar empréstimo pessoal a 46% ao ano para consumir, nem pensar. Os juros caíram sim, mas é preciso saber que ainda é muito caro”, afirma.

Oportunidade

André Arruda, gerente de vendas de uma concessionária de veículos da Vila Cardia, avalia que a saída de carros zero quilômetro continua boa. “Com a redução do IPI garantida para os próximos meses, a procura aumentou, assim como houve aumento na oferta de crédito”, explica. Para ele, o bom movimento deve continuar até o final do ano.

Ele avalia que o principal fator que impede o acesso às linhas de crédito é a inadimplência. “Alguns clientes não conseguem acessar financiamento porque possuem algum tipo de restrição de crédito”, observa. Mesmo com a inadimplência em alta - de acordo com o Banco Central o índice de junho foi de 5,7% - ainda está fácil obter crédito para a compra de veículos. “Isso porque o volume de financiamentos e de pagamentos em dia continua muito maior”, pondera.

A assessora executiva Carmelina Vieira Fendel aproveitou as taxas reduzidas de juros e a redução do IPI para adquirir um carro zero. “O momento está muito bom para comprar. Como não dá para saber como vai estar daqui a dois meses, resolvi me programar e adquirir o carro”, conta. Ela frisa que conseguiu a linha de crédito rapidamente. “E ainda negociei muita coisa. Valeu a pena”, afirma.

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Inadimplência continua recorde

Apesar da redução das taxas de juros para crédito pessoal e para aquisição de veículo, o levantamento do Banco Central apontou o aumento da inadimplência. Considerados os atrasos maiores de 90 dias, a inadimplência referencial atingiu 5,7% em junho - a maior desde 2000. O índice de “calote” dos empréstimos a pessoas físicas alcançou 8,6%, mesmo índice de maio. Já nas empresas, os atrasos ficaram em 3,4%.

O economista Adriano Fabri explica que, mesmo com a inadimplência alta, os juros tiveram queda, pois as taxas para quem toma empréstimo sofrem várias influências, além do índice de não pagamentos, como impostos, oferta de crédito e custo de captação.

“Hoje, os bancos voltaram a contatar os clientes para oferecer crédito, ou seja, o dinheiro reapareceu no mercado. Para ajudar nesse cenário, a taxa básica de juros, que representa o custo de captação para os bancos, também caiu muito. Isso explica a queda mesmo com a inadimplência tendo aumentado”, diz.

Ele acredita que a oferta de créditos pode aumentar ainda mais a inadimplência se o consumidor não planejar seus gastos e compras. “Um dos principais fatores que influencia no aumento da inadimplência é a diminuição do emprego e da renda. Claro que a falta de análise, planejamento e controle no orçamento pessoal ou familiar pode contribuir. Portanto, a orientação é controlar o orçamento”, completa.

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