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O carro, o avião e o camelo

Paulo César Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

O mundo está diante de grave crise energética que começará a ser sentida nas duas próximas décadas. Não se preparar hoje para este desafio, alterando radicalmente nosso modo de vida, significará comprometer a prosperidade econômica e a sobrevivência da espécie humana. Nossa sociedade continua dependente do petróleo. Ele a transformou e é o responsável pelo desenvolvimento de diversos setores industriais. Um litro de petróleo pode impulsionar uma tonelada de metal (ou um veículo) por dezenas de quilômetros; para retirar, de uma tomada elétrica, uma quantidade equivalente de energia, seria necessária a noite toda. A energia obtida do petróleo é extremamente concentrada, facilmente transferida e utilizada.

São necessárias 10 calorias desse combustível para produzir uma caloria de comida. Se a embalagem e transporte forem incluídos, esta proporção sobe consideravelmente. A maioria dos pesticidas é obtida a partir do petróleo e todos os fertilizantes são baseados nele ou em seus derivados. O petróleo permitiu a existência de ferramentas agrícolas, dos tratores, dos sistemas de armazenamento e distribuição de alimentos e, por sua vez, a agricultura contribuiu para o aumento populacional. Enquanto a produção petrolífera subiu, subiu igualmente a produção de alimentos e igualmente a população, o que levou ao aumento na procura por mais petróleo.

Hoje, o preço do petróleo inclui a pesquisa, prospecção, extração, refino, distribuição, a especulação e, certamente, encontra-se nesta soma uma parcela para compensar o produtor pelos dias em que ele vai faltar, já que um planeta finito possui recursos finitos. Talvez fosse necessário avaliar e incluir no preço do petróleo o custo social associado à degradação do meio-ambiente provocada por ele.

A produção mundial de petróleo no ano 2020 será a mesma de 1980. Contudo, a população mundial em 2020 será de, aproximadamente, o dobro daquela e muito mais industrializada. Conseqüentemente, a procura mundial de petróleo ultrapassará a sua produção por uma margem significativa. Quanto mais a procura exceder a produção, mais alto será o preço. Em última análise, a questão não é “quando acabará o petróleo?”, mas sim “quando acabará o petróleo barato?” O fim do petróleo não acontecerá bruscamente, mas, sofrerá uma lenta agonia e a tensão, em busca das suas últimas reservas, se agravará e vai gerar conflitos. Quando ele se tornar rarefeito e dispendioso, toda sociedade terá que se adaptar, ainda mais em um País com ênfase no transporte rodoviário.

Desenvolver energias renováveis, utilizar o hidrogênio e a biomassa, aumentar a eficiência e, sobretudo, diminuir o consumo são medidas elementares, mas, insuficientes porque o consumo de energia é sempre proporcional ao crescimento tanto da população quanto da economia; ele segue uma trajetória paralela àquela do PIB.

Dez mil anos atrás existiam apenas cerca de 5 milhões de pessoas no planeta; em 1850, havia 1 bilhão; em 1950, 2,5 bilhões; hoje temos quase 7 bilhões. Isto é, um habitante e meio para cada volta que a Terra deu em torno do Sol. Nossa própria quantidade é, agora, uma grande ameaça à biosfera. Por conta da crescente quantidade, do conforto e do complexo sistema tecnológico implantado, o consumo de energia continuará aumentando. O carvão mineral, depois do vegetal, foi o combustível que alicerçou a Revolução Industrial. Substituído, em grande parte, pelo petróleo e pelo gás no início do século 20, em 2005 ainda respondia por 33% da energia produzida no mundo. Com reservas mais importantes que aquelas do petróleo, com a vantagem de estarem mais bem distribuídas no planeta e ainda por cima, localizadas junto a países industrializados na Europa e na América do Norte, o carvão mineral, infelizmente, voltará à plenitude de seus dias. Apesar das dificuldades na exploração e das péssimas condições de trabalho, apesar da China e da Índia contabilizarem mais de 5 mil mortes por ano nas minas, estes dois países inauguram uma central térmica a carvão por semana. Elas são poluentes, muito mais poluentes que as acionadas por gás e derivados de petróleo. Dados de 2008 mostram que 439 reatores nucleares estavam em serviço, fornecendo 6,3% da energia mundial. Este percentual, seguramente, vai aumentar em muitos países, inclusive no Brasil. A França, por exemplo, tem 78% da eletricidade gerada desta forma.

Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, as reservas atuais de urânio são suficientes para alimentar todos os reatores em operação por mais de um século e novas jazidas poderão ser descobertas. No entanto, a extração do urânio é igualmente perigosa para os mineiros e para o meio ambiente e, até hoje, não se sabe o que fazer com os resíduos radioativos. Um engenheiro saudita certa vez me disse um ditado que reflete bem nossa realidade: “O meu pai andava de camelo. Eu ando de carro. O meu filho anda de avião. O filho dele vai andar de camelo se não destruirmos o planeta antes disso”.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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