São Paulo - “Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma.’’ Esse é apenas um dos avisos que o Metrô veicula em seus trens. Porém, nessa temporada de gripe suína, mais um poderia entrar: “Não tussa ou espirre. Evite constrangimentos.”
A nova epidemia transformou a tosse e o espirro em sinônimo de assepsia de pessoas em locais públicos. Aquele que tossir num elevador pode ser tratado como pária.
As atrizes Camila Oliveira Silva, 24 anos, e Fabiula Antonini, 35 anos, ambas saudáveis, a testar o nível de pânico causado pela gripe suína no metrô e no Shopping Iguatemi, em São Paulo. Pelos trens, a missão era tossir; no shopping, visitar lojas usando máscara cirúrgica.
Nos dois lugares as reações foram opostas. No shopping, os visitantes olhavam curiosamente, riam nervosamente e até faziam brincadeirinhas.
O vendedor Marcelo Maciel, 33 anos, atendeu Fabiula tranqüilamente. Perguntou se ela tinha vindo do Exterior e como estava a situação por lá.
Já no metrô, a primeira reação das pessoas era enfiar a cara dentro da gola da blusa ou enrolar um cachecol sobre o nariz e a boca. Outras viravam o rosto, trocavam de lugar, desviavam, reclamavam.
“Claro que fiquei assustada. Faço parte do grupo de risco’’, diz a grávida Monica Santos, 41 anos, que cogita trocar o metrô pelo ônibus no trajeto até o trabalho. “Pelo menos dá para abrir a janela e o ar circula.’’
Apesar do incômodo, os usuários não tinham o menor cuidado em evitar tocar em locais onde as atrizes haviam levado as mãos. Um erro grosseiro, já que, segundo o infectologista Artur Timerman, estudos europeus indicam que 60% dos casos foram contraídos por meio de objetos com secreções de pessoas contaminadas.
“A reação é instintiva, mas exagerada. Mesmo se você estiver com todos os sintomas, e não estiver com falta de ar, não é gripe suína.”
A psicóloga Ana Bahia Bock associa a reação das pessoas ao fato de o novo vírus ter mudado nossa concepção sobre a gripe. “As pessoas não só descobriram uma nova gripe, mas ficaram sabendo que a gripe comum sempre matou. Aí, surgem reações descabidas, já que, hoje, tudo que é inexplicável em termos de saúde, é classificado como virose.”