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Minha história: O fim do “happy end”


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Quando jovem, lá nos idos de mil novecentos e..., o amor era um desejo romântico, um sonho político contra o “sistema”, em busca de liberdade contra as regras da caretice, diferente deste amor de mercado, tansgênico, geneticamente modificado - este “fast love” de agora. É o fim do happy end”.

E, no entanto, era difícil amar completamente. Falo isso porque sou do tempo em que as namoradas não “davam” nem morta. O medo era a gravidez. Coisas do século passado. Não havia motéis. Namorávamos em qualquer buraco: terrenos, cantos, e, vez ou outra, no cinema, mas só quando o parco salário permitia bancar as duas entradas. Às vezes o “lanterninha” nos flagrava em situações delicadas, mas até aí tudo bem, apenas mais um motivo para contar vantagem e se firmar diante dos amigos.

Tantas que tentei “amassar” e que na hora H empacavam. Ao menos sobrava algum chupão e beijo molhados de língua. Quantos malabarismos em sutiãs inacessíveis, quantas palavras gastas em complexas cantadas. Quanto medo de brochar e de ser apanhado em pleno ridículo. Ah! Como foi bom. Ao contrário do dito saudosista, eu fui feliz e sabia. Vivi cada instante mágico. É como fala velha canção “...meus olhos molhados insanos dezembros, mas quando me lembro, são anos dourados”.

Andávamos em grupo de rapazes. Cada qual se esforçando para ser mais gabola que o outro e nem nos envergonhávamos das vantagens inventadas, mas no íntimo sabíamos que éramos todos calouros na arte de amar e que elas sim, embora quase sempre mais jovens, sabiam muito mais.

Creio que eu muitas vezes exagerei quando das narrativas das minhas estórias. De verdade mesmo, confesso agora, com a minha primeira namorada, virgem, mas de costumes nem tanto recatados para época - lembro-me que ela quis me explicar, sem qualquer princípio de rubor no rosto, o que era menstruação -, trocava tão somente carinhos sófregos, com desespero e orgasmo no ar, apavorado com os olhos nem sempre vigilantes de sua mãe. E logo eu que vivera até então na horrenda divisão entre casas de tolerância e romances platônicos, achei que ia viver meu primeiro amor intensamente, uma verdadeira paixão.

Que nada. Um dia ela me largou e, como lembrança, deixou-me com um belo ornamento na testa e então me vi frágil, mais boêmio que antes, pensando em algum verso clássico de bossa nova, de Vinícius e Tom.

Sofri com aquela ingratidão contra um proletário como eu, trocado por alguns $$ de um burguesinho, feliz possuidor de um reluzente Ford Corcel cor bege. Bah!!! Ingênuo garoto romântico, não sabia que àquela época a expressão muito em voga hoje: “a fila anda” se achava em pleno uso e que o dinheiro matava os mistérios do amor.

Atualmente, com o ritmo acelerado, os casos duram uma semana ou pouco mais e as emoções estão programadas em software.

Mas se a história atual parece não ter mais sentido, ainda queremos encontrar sentido para a vida, claro, e o amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver. Mesmo denegada, a sensação da eternidade que a paixão provoca é um desejo geral.

E cá estou mais uma vez como em filme francês antigo, em que o herói termina seus dias em hotéis vagabundos, sozinho, escrevendo artigos que nunca irá publicar. Aí fico na espera de abrir o jornal numa manhã de domingo e deparar-me, sem quaisquer outras pretensões, apenas para meu deleite, com a publicação do texto.

Gilberto Sidney Vieira

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