Usar da criatividade para enfrentar as fraquezas humanas é um ato que revela, na mais pessimista das avaliações, um mínimo de sabedoria. O racismo, como tantas outras de nossas abomináveis e rotineiras práticas onde habitam a intolerância, o preconceito e a ignorância, não é privilégio de negros ou brancos, ricos ou pobres, letrados ou não. É uma manifestação da fragilidade humana, que entra em conflito com a nossa incapacidade de compreensão do quanto somos iguais.
Assim, compensamos nossas semelhanças e buscamos consolar tal frustração no pouco que nos resta para comparações. Então, procuramos desesperadamente pelas diferenças; nelas sacramentaremos nossa autoridade. Nada melhor que algo que julgamos pior para acalmar nossas falhas, limitações e perdas. E imaginamo-nos felizes porque somos mais cultos, mais fortes, mais lindos que algo ou alguém. Mas, como assim, se somos todos farinhas de um mesmo saco evolutivo e que diante de tanta carência de conhecimento nos sujeitamos a mirabolantes respostas sobre como viemos e, por mais que pareça o contrário, não fazemos a mínima idéia para onde vamos?
Lutamos contra a nossa própria essência quando nos credenciamos à superioridade. O jeito de falar, de vestir, de ver o mundo torna-se barreira intransponível diante do outro. E quando não encontramos nada que justifique tola busca, chegamos à rasteira condição de comparar a cor da própria pele. E aí erramos feio. E vamos mais longe, o filósofo moral Peter Singer lembra que, como se não bastasse o estabelecimento de uma fronteira moral, como ocorre com a raça e o sexo, o que tornam racismo e sexismo rejeitados pela nossa ética, há, ainda, uma outra arbitrariedade a ser superada, o especismo.
Em nossas deliberações morais temos de dar o mesmo peso aos interesses de todos os seres afetados pelas nossas ações, seja qual for a espécie, mesmo a não humana. Pretensioso demais? Bem, há não muito tempo, muitos de nós, humanos, apenas pelas diferenças, nem sequer estávamos devidamente classificados nessa categoria. Temos muito que avançar neste campo ético e, entre um e outro enfrentamento duro, como é dura a realidade de quem vive essa violência, podemos espairecer degustando, moderadamente, uma boa e conciliadora cerveja. Clara ou escura?
O autor, Luís Victorelli, é jornalista - e-mail: lvbauru@gmail.com