Quando uma pescaria dá errado não é uma pescaria, é uma aventura. Foi o que aconteceu quando eu fui ao Rio Negro, no Pantanal do Mato Grosso do Sul. Eu e o amigo Osvaldo saímos com o seu Monza puxando uma carreta bem pesada por sinal, com o bote, motor de popa e os apetrechos de pescarias para passar uns dez dias no Pantanal. E quando estávamos chegando a Campo Grande, o Monza começou a apresentar defeito na agulha do carburador, e a cada 50 km tinha que parar para desentupir a agulha.
Até que paramos em um posto de gasolina para esgotar o tanque porque pensamos que era sujeira no mesmo, mas nada adiantou, e continuamos a limpar a agulha até chegar à cidade de Rio Verde, onde, em uma oficina mecânica, foi constatado o defeito. Era o catalisador que estava obstruído e saía um carvão do mesmo.
Como já era tarde, passamos a noite na casa de um amigo do Osvaldo. Acordamos bem cedo e seguimos a viagem por uma estrada pantaneira de terra batida, pouco conhecida, aí começou nossa próxima aventura, porque a estrada tinha diversos mata-burros quebrados com falta de tábuas, tinha que parar o carro para colocar paus de eucaliptos para poder seguir viagem. Já tínhamos viajado mais de 100 km, até que apareceu um cavaleiro. Paramos para perguntar onde estávamos e ele disse que tinha um posto de gasolina a uns 15 km em frente e eu perguntei, de carro? Não, a cavalo! Que dava mais ou menos uns 80 ou 100 quilômetros em frente até chegar ao tal posto.
Depois de abastecer e descansar um pouco, pé na estrada novamente. Mais 25 km até chegar ao rio. Chegando lá, já era tarde. Montamos o acampamento mais ou menos e fomos fazer um café para passar a noite, mas cadê o fogão de duas bocas? Ele ficou em Bauru esquecido. Tivemos que improvisar um fogão com umas pedras, e assim foi feito.
No dia seguinte, acabamos de montar o acampamento e pôr as traias em ordem. Fomos colocar o barco na água e descemos o rio para dar uma olhadela, e na volta ao rancho uma surpresa nos esperava: tinha entrado algum animal na nossa despensa e devorado duas dúzias de ovos que tínhamos trazido.
E assim foi passando o dia no Pantanal, nós armando anzóis de galho e pegando só jacaré, até que um dia eu disse ao Osvaldo: por que os nossos vizinhos pegam peixes e nós, nada? Eu fiquei desconfiado, como nós não tínhamos selebim para correr os anzóis à noite, os pirangueiros iam à noite pegar os nossos peixes, e nós só íamos quando o dia clareava e sempre encontrava os anzóis sem iscas.
Paramos de armar anzóis e fomos pescar com a vara de bambus e assim conseguimos pegar uns piauçus e umas piriputangas. Uma noite eu acordei assustado com o maior toró da minha vida. Juro que fiquei com medo, nunca tinha visto uma tempestade no mato, raios por todos lados, e o pior que o acampamento tinha ficado numa baixada e alagou tudo. Tive que dormir em cima do estepe da carreta, mas o amigo Osvaldo não sofreu nada, ele estava a dormir numa cama tatu que ficava a um metro do chão. No dia seguinte, só se via colchão dependurado para secar, dos pirangueiros que por lá estavam.
Um dia fomos pescar numa lagoa que existia por perto, e como dava traíra, pegava cada uma que precisava puxar a vara com tanta força para trazê-la da água, e a linha tinha que ser 0,60 para agüentar, e foi nessa pescaria que nos divertimos um pouco.
Mas como não dava certo quase nada, nós resolvemos voltar para casa. Aí, outra surpresa: a roda da carreta estava travada por falta de graxa. Agora, onde arrumar graxa naquele fim de mundo? Tive a idéia de desmontar a outra roda e lubrificar a roda com a graxa que tirei da mesma, e assim ficou resolvido o problema e seja lá o que Deus quiser, chega de dar tudo errado.
Nós, que íamos ficar dez dias, ficamos só cinco dias, e já foi demais. Voltamos por outra estrada que conhecíamos e a viagem foi normal, graças a Deus.
Quando eu disse que a nossa pescaria foi mais uma aventura do que pescaria, eu não estava mentindo. Foi uma aventura da pesada mesmo, e foi bom para eu aprender muitas coisas nessa viagem ao Pantanal do Mato Grosso, porque precisamos ir mais prevenidos para não passar o sufoco que passamos. Valeu passar por tudo aquilo!
Florindo Martins é pescador e contador de histórias