“Política é a arte de procurar problemas, encontrá-los, diagnosticá-los equivocadamente e, então, aplicar os remédios errados.” (Groucho Marx)
O bate-boca no Senado nesta semana entre aliados do governo na defesa de José Sarney e oposição trouxe de volta figuras políticas de um Brasil arcaico. Elas ressuscitaram das cinzas igual à Fênix. Com devido respeito, a discussão envolvendo senadores até pareceu aquelas trocas de ofensas de vereadores de cidades interioranas, onde se resvala para as vias de fato e ataques pessoais. A meu ver até conversa mais acalorada de botequim sobre política tem mais dignidade do que numa Casa como o Senado, instituição representada por políticos mais experientes que tem objetivo de funcionar como o equilíbrio entre os poderes da federação.
O senador Fernando Collor de Mello, com seu rosto histriônico, olhar facínora, fez relembrar um episódio da história recente que nem é bom ser rememorado. O único cassado por falta de decoro, num País que isso não é costumeiramente levado a sério. O pior é que agora ele está do lado de quem o chamou de corrupto e apóia o presidente da República que, no passado, numa disputa eleitoral forjou uma história sobre o aborto da filha do seu oponente, num dos métodos mais horripilantes da política nacional da máxima de que os meios se justificam os fins.
O furacão que atormenta Brasília com o mar de lama incontrolável nada mais é do que os velhos vícios de lotear a administração pública, como Sarney faz no Maranhão e em Brasília, não suficiente para sensibilizar a população que tudo isso poderia ser riscado da política se não reelegesse essa classe política arcaica e patrimonialista.
Apesar de tanto desmando e corrupção, esses zumbis políticos se reelegem e expõem a falta de coerência do eleitor brasileiro. Essa tolerância tupiniquim com esse sistema de indicações de cargos políticos, tipo o de arranjar uma boquinha para a sobrinha, é mão dupla na relação político-eleitor. Muitos não enxergam nada anormal nessa conduta enraizada de quem se locupleta de cargo de representação no Estado. Pesquisa recente aponta que um estrato considerável da população concorda com a apropriação do Estado para fins particulares.
Longe de afirmar aquela máxima que Pelé celebrizou de que o povo brasileiro não sabe votar, o que se nota é que quem escolhe também não vê ética, decência do nomeado como seu representante ao elegê-lo para cargo público.
Quem tem uma certa dignidade já cansou de ver escândalos, improbidade, impunidade e a volta triunfal, com voto do povo, dessa classe política improba. A lentidão da Justiça colabora por conceder liminarmente atestados de idoneidade moral, afinal os foros privilegiados funcionam para dificultar as apurações e os julgamentos. Basta levantar os números de processos julgados nas cortes para demonstrar a leniência com a classe política.
Sarney sobrevive politicamente há décadas, mas só agora foi aberta a caixa de pandora dos seus desmandos e do seu estilo oligárquico, algo que estava exposto, mas tolerado em nome de uma governabilidade e da tolerância da sociedade com malfeitorias.
O senador do Amapá se sustentou politicamente como aliado do período da ditadura militar, depois mudou de lado na criação da Frente Liberal e, por sorte do destino, chegou ao mais alto cargo da Nação: presidência da República. De lá para cá, continuou influenciando, mandando e resistindo. Até quando o povo brasileiro vai tolerar tudo isso?
O autor, Aurélio Alonso, é editor do JC