Geral

Entrevista da semana: Paulo Burian

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

‘Desde criança, o Carnaval me encanta’

Nem médico, nem engenheiro ou advogado. Quando criança, era o Carnaval que o encantava e que despertou, mais tarde, o lado profissional do bauruense Paulo Burian. Seu primeiro trabalho foi na escola de seu bairro, Unidos da Independência. O que, no início, era diversão de garoto se transformou em profissão ao lado de trabalhos como decoração de festas e eventos, paisagismo, cabelo, maquiagem, confecção de alta costura, entre outros.

Em busca de melhores oportunidades, Paulo juntou a bagagem e se aventurou em terras lusitanas. Em Portugal, sofreu com as adaptações e diferenças culturais, aprendeu a conviver com as diferenças, trabalhou como professor de artesanato e levou o Carnaval brasileiro para os portugueses nos anos de 2007, 2008 e 2009.

De volta ao Brasil, ele fala ao Jornal da Cidade sobre a adolescência e a tradição do Carnaval nos bairros da Bauru da década de 80 à sua “decadência”, trabalho, desafios e experiências vividas em Portugal, além de projetos futuros. Confira os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Como o Carnaval passou a fazer parte da sua vida?

Paulo Burian - Isso foi no final de 1984 e início de 1985, na Unidos da Independência, escola do bairro onde minha mãe ainda mora. Eu estava no início da adolescência, com cerca de 15 anos e tudo começou com um movimento entre amigos do bairro. Naquela época, como ainda hoje, os bairros não tinham grandes opções de lazer e de entretenimento e as escolas de samba acabavam sendo um programa de meio de semana e um ponto de encontro entre os amigos. Foi nesses encontros para ensaios que o Carnaval passou a integrar minha vida.

JC - Como era o Carnaval de Bauru, naquela época?

Paulo - Minha família não tem tradição a ponto de participar ativamente dentro de uma escola de samba, mas minha mãe sempre nos levou aos desfiles e ensaios. Eu vejo o Carnaval daquela época como um grande programa e evento, principalmente para pessoas simples, e isso começou a me despertar encanto, como os livros da escola. Eu fantasiava o que estava lendo, principalmente através das figuras, e quando comecei a participar do Carnaval, tive a impressão de que as histórias se tornavam reais. A alegria que era a festa, as famílias e os amigos todos juntos, o verdadeiro piquenique preparado para ir até o local, era tudo uma festa. Eu tinha expectativas e o que visualizava, me encantava muito. Para mim, o Carnaval era meu mundo infantil transportado para o mundo real ali, na avenida.

JC - Quando você começou a participar ativamente do Carnaval bauruense?

Paulo - Foi justamente em 1985. A escola era de pequena proporção e feita por gente muito simples. Então, todos ajudavam naquilo que acreditávamos ser bom para o bairro. Era tudo muito tranqüilo na época, não tinha brigas ou confusões e todos se sentiam bem. Foi aí que meus amigos e eu decidimos criar uma ala para ajudar a escola. Não tínhamos conhecimentos, mas fizemos tudo direitinho com o intuito de diversão. Eu nem imaginava que viraria uma profissão.

JC - E qual foi o tema?

Paulo - Era uma homenagem a Bauru pela história da ferrovia, não me lembro muito bem, mas o que não sai da memória é que tudo foi feito com muito carinho e improviso. Acreditávamos naquele mundo de fantasia que ajudávamos a tornar realidade.

JC - Vocês tinham apoio financeiro?

Paulo - A verba vinha da prefeitura e, nos ensaios, nossa escola vendia bebidas e comidas para ajudar com os gastos. Havia uma loja, na época, que trazia material e algum detalhe que não encontrávamos ou não tínhamos dinheiro para comprar, era improvisado de modo que não mudasse a idéia original, mas deixasse o custo ao alcance da escola.

JC - Vocês chegaram a vencer na avenida?

Paulo - Sim, é a partir daí que começa minha história profissional no Carnaval, porque fui trabalhar com José Horácio, na época em que a Tilibra tinha loja na avenida Rodrigues Alves. Depois que montamos a ala e deu tudo certo, eu passei a me interessar mais pela montagem da festa, pelo processo de criação propriamente dito.

JC - Por quanto tempo você trabalhou no Carnaval de Bauru?

Paulo - Na verdade, nunca deixei o Carnaval da cidade mas, efetivamente falando, o último desfile foi em 2000. Porém, continuamos auxiliando sempre que possível até 2004, quando fui embora para Portugal.

JC - O que você foi fazer em Portugal?

Paulo - Na realidade, eu estava cansado do excesso de trabalho, da rotina e de uma série de coisas profissionais. Cheguei a um ponto em que estava trabalhando 18 horas por dia e sete dias por semana. Eu precisava dar um tempo para enxergar as coisas de fora. Fui meio na loucura e à procura do desenvolvimento do meu lado profissional.

JC - A que você atribui a decadência do Carnaval em Bauru?

Paulo - Gosto de dizer que o problema está na dificuldade que as pessoas têm em enxergar as verdades que não são as delas, porque cada um tem seu repertório pessoal e isso gera conflitos, principalmente quando não há um projeto em comum. Outra coisa que sempre critiquei foi o fato da prefeitura fazer um repasse de verbas de acordo com o número de integrantes, isso depois que passei a estudar o projeto de Carnaval. Fiz muitas excursões para estudar a estrutura da festa carioca. Claro que é uma realidade muito distante da nossa, porque as escolas são grandes empresas, mas percebi que é preciso investimento e, para isso, uma administração competente.

JC - Você sente saudade do Carnaval de sua juventude?

Paulo - Sinto saudade porque, na minha infância, era a única festa que as pessoas tinham para se divertir e foi um grande espetáculo. Quem viveu isso, sabe do que eu estou falando. Era uma festa com qualidade e se perdeu. Perdemos as pessoas que se envolviam com a comunidade por amor, ou seja, são nove anos que a cidade não tem uma festa assim como a que era, com certeza, o maior evento cultural de Bauru. Ninguém é obrigado a gostar do Carnaval, mas não podemos negar que é uma festa cultural brasileira e que envolve música, dança, representação teatral, enfim, é arte.

JC - Você percebeu essa força do Carnaval brasileiro em Portugal?

Paulo - Sim. As duas grandes referências do Brasil são o Carnaval e o futebol.

JC - Você levou nossa festa até eles?

Paulo - Trabalhamos em uma empresa com mais de 30 anos de Carnaval no estilo luso-brasileiro. Trabalhei com eles em 2007, 2008 e 2009 em uma associação local que tinha a característica de promover a festa no estilo brasileiro. A repercussão foi muito boa.

JC - Quando chegou a Europa, você já tinha a intenção de trabalhar com o Carnaval?

Paulo - Na verdade, eu estava em busca de progredir profissionalmente, já que trabalho em várias áreas. Eu queria também ter o retorno financeiro que não estava conseguindo aqui. Vendi boa parte do meu material de trabalho como decorador de festas e eventos e me aventurei. Fui tentar. Trabalhei com artesanato brasileiro, montagem de arranjos florais, bonecas e bichinhos artesanais, um pouco de artes plásticas, etc. Cheguei a dar aulas de artesanato para professores universitários. Trabalhei em muitos lugares do país e não conseguia criar raízes em lugar algum. Lidei com todos os tipos de públicos, desde crianças a idosos, e foi através desses trabalhos que conheci pessoas que me levaram até os projetos de Carnaval.

JC - Passou dificuldades no Exterior?

Paulo - Quando vamos a passeio, tudo é maravilhoso, mas quando a idéia é trabalhar e viver, os castelos, príncipes e princesas se transformam. Primeiramente, porque a cultura é diferente e a adaptação é complicada. Portugal é um país muito velho e tradicional e tudo o que é novo acaba gerando desconfiança e um certo preconceito. O brasileiro turista é visto lá com bons olhos, mas o imigrante é mais um para competir no mercado de trabalho.

JC - O que ficou de bom desses cinco anos em que viveu fora?

Paulo - Essas viagens são ótimas para o aprimoramento da cultura e para conviver com as diferenças, além de testar sua paciência e respeitar as diferenças de conceitos que existem.

JC - Quando voltou ao Brasil?

Paulo - Voltei ao Brasil em 2007, mas retornei em 2008 para o Carnaval português e fechamos um contrato já para a festa de 2009, que acredito ter sido a melhor.

JC - Há projetos para o Carnaval de 2010, em Portugal?

Paulo - Não tenho certeza sobre o Carnaval 2010. Houve mudanças de diretoria e na forma de pensar do grupo. De acordo com a minha experiência, acredito que eles ainda vêem as pessoas de países que foram colonizados por Portugal como escravos. Acham que é um presente estarmos morando fora do País.

JC - Você ganhou dinheiro lá?

Paulo - O gasto lá é muito alto. Você ganha melhor, mas gasta mais. Porém, a minha aposta cultural e a experiência adquirida foram meu grande ganho.

JC - Deve ter sido uma viagem inesquecível.

Paulo - Sim, principalmente pela beleza de lugares como o Castelo da Pena, Quinta das Regaleiras, Mosteiro dos Gerônimos, Lisboa, o Centro Comercial Vasco Da Gama, a Praça do Comércio em Lisboa, Ponte Vasco da Gama sobre o rio Tejo, a baixa de Coimbra, o rio Douro e a Serra da Estrela, no Norte de Portugal, entre muitos outros.

JC - O que pretende fazer de volta ao Brasil?

Paulo - Estou em uma fase de transição e investindo na pouca probabilidade de voltar a Portugal em 2010. Pretendo investir na minha formação profissional. Sou formado em desenho industrial na área de comunicação visual, além de ser estilista e de ter muitas outras formações fora da academia. Já trabalhei com decoração de festas e eventos, paisagismo, cabelo, maquiagem, confecção de alta costura, esculturas, enfim, gosto do trabalho artístico e estou fazendo alguns contatos na cidade.

JC - Quando criança, pensava em seguir uma carreira diferente?

Paulo - Não. Esse tipo de arte e o Carnaval me chamam a atenção desde criança.

Comentários

Comentários