Bairros

Um olhar para dentro

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 5 min

Talvez a correria do dia-a-dia não tenha permitido ainda que a maior parte dos moradores de um determinado bairro consiga, pelo menos por um instante, observar e identificar no lugar onde residem com a família algo que seja como um “cartão postal”. Não necessariamente precisa ser algo bom, mas sim, aquilo que remete à lembrança do lugar onde se vive.

As pessoas passam pelas ruas tão apressadas e atrasadas que, na verdade, nem notam as coisas que são peculiares ao lugar onde moram. Algo que só acontece naquele local ou alguma coisa que só se enxerga naquele lugar. A proposta de encontrar peculiaridades em cada região da cidade foi a base para a tese de doutorado “Rumo ao Concreto”, da professora aposentada Lúcia Helena Ferraz Sant’ Agostino, realizada entre o segundo semestre de 1997 e o primeiro de 1998 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Apesar da data, permanece atual.

Os bairros escolhidos como cenário para essa pesquisa de campo foram Jardim Bela Vista, Núcleo Habitacional Redentor, Vila Independência, Terra Branca, Jardim Europa e Jardim América. De acordo com a professora, a estratégia para se chegar ao objetivo esperado foi escolher em cada bairro 12 pessoas. Para cada uma foi entregue uma máquina fotográfica com 12 poses para que essas pessoas pudessem, através das fotos, revelar o seu bairro.

Junto com as máquinas também foi entregue para cada participante um questionário com perguntas simples que relataram um pouco do dia-a-dia das pessoas que participaram. “A opção pela linguagem fotográfica se deu para que pudéssemos captar informações livres, diferente da pressão exercida pela técnica da entrevista oral”, explica Lúcia Helena.

Objetivo

A professora também contou com a ajuda de bolsistas e alunos dos cursos de jornalismo, arquitetura e rádio e TV, que colaboraram na abordagem e investigação junto aos participantes. “O principal objetivo era que as pessoas demonstrassem pelas fotos o que era mais significativo no seu cotidiano e modo de viver. Boa parte das pessoas fugiram da proposta inicial”, afirma.

Seis temas foram sugeridos, mas não impostos, como educação, saúde, habitação, lazer, trabalho e consumo. A abordagem dos moradores foi realizada de maneira aleatória, explica a professora.

A preocupação existiu para que não acontecesse que algum bairro tivesse uma avaliação baseada por visões idênticas. A professora conta que, para selecionar os participantes, foi dispensado o auxílio de entidades, clubes, igrejas ou associações de moradores. “Foram abordadas pessoas de todas as classes sociais, e isso colaborou bastante para o resultado final”, afirma.

Lúcia Helena conta que o primeiro bairro a ser visitado foi o Jardim Bela Vista, na região norte da cidade, onde a receptividade dos moradores levou os pesquisadores a acreditar que o levantamento dos dados seria fácil. “No final do trabalho, ao avaliar tudo, percebemos que essa receptividade é típica do bairro, onde a amizade entre os moradores, a ligação afetiva e o cuidado das pessoas com local é muito grande”, conta.

Ainda no mesmo semestre, foi a vez dos jardins América e Europa, na região sul da cidade, serem visitados pelos pesquisadores. Segundo a professora, eles encontraram uma realidade diferente da vivida no Bela Vista. “A dificuldade em abordar pessoas que aceitassem participar do trabalho foi enorme. Percebemos que naquela região havia realidades distintas: moradores do (Jardim) Europa pensavam e viam o bairro de uma forma, e do (Jardim) América de outro totalmente diferente”, lembra.

Depois de um breve intervalo, já no início de 1998, a pesquisa seguiu para a região leste, que sedia o primeiro Núcleo Habitacional de Bauru, o Jardim Redentor. “Ali encontramos uma divisão de classes que não sabíamos da sua existência. Como o núcleo foi construído em etapas e batizado de Redentor I, II e III, nesses locais havia uma divisão baseada pela renda das famílias”, conta.

Os pesquisadores também estiveram na região oeste, Vila Independência e Jardim Terra Branca. Sobre esses bairros a professora fez duas observações: a primeira vem da Vila Independência, onde a identidade dos moradores com o local é semelhante ao que foi encontrado no Jardim Bela Vista. Já no Terra Branca, além do vazio urbano que permite que os moradores se sintam isolados de outros bairros, o local era classificado pelos próprios moradores como um “lugar de passagem”.

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Visão do bairro ainda é parecida para quem participou

Desde que as pesquisa de campo para a elaboração da tese de doutorado “Rumo ao Concreto” foi realizada já se passaram dez anos, mas a opinião das pessoas em relação ao lugar onde residem não mudou. Dos 144 moradores selecionados nos bairros, muitos não foram encontrados. O motivo foi mudança ou trabalho, mas vários deles permanecem vivendo no mesmo lugar.

Marilene de Lurdes Rodrigues e o marido Ademar Rodrigues, que residem na Vila independência, região oeste da cidade, participaram da pesquisa e, além de responder ao questionário, fotografaram o bairro conforme sua visão.

“Na verdade o bairro não mudou muito, melhorou um pouco, mas a realidade é praticamente a mesma. A gente gosta de morar aqui, nos identificamos com o bairro, estamos aqui há 23 anos. Essa idéia de fazer parte do bairro é automática”, explica Marilene.

A professora aposentada e autora da tese, Lúcia Helena Ferraz Sant’ Agostino também acredita que dez anos é pouco tempo para que a realidade de um determinado bairro possa mudar. “Se a pesquisa fosse realizada hoje novamente, com as mesmas pessoas, é possível que o resultado final fosse igual ou o mais próximo possível do verificado no passado”, acredita.

Vinícius de Barros, morador no Jardim América, também reforça a avaliação que fez na época. “Na verdade o que mudou por aqui foram os investimentos imobiliários, mas se tivesse que fotografar novamente, talvez registraria o que vi no passado”, afirma.

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