Bairros

Novos moradores são convidados a ‘enxergar’ o bairro

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 3 min

A tese de doutorado “Rumo ao Concreto” defendida pela professora Lúcia Helena Ferraz Sant’ Agostino identificou nos bairros pesquisados diferentes realidades numa mesma comunidade. A reportagem do JC percorreu esses bairros abordando moradores também de forma aleatória para fazer a mesma pergunta.

No caso da tese, os moradores da época responderam com uma máquina fotográfica na mãos e 12 posses para retratar o que enxergavam. Já a abordagem feita pela reportagem exigia uma resposta oral.

Mesmo havendo diferença nas abordagens, foi possível notar que a realidade retratada em cada bairro na época ainda está presente. Na Vila Independência, a receptividade das pessoas é visível e a identificação com o bairro também. Lídia Massari, que vive no local há 29 anos, diz que se identifica com o comércio local e afirma que se o mesmo método utilizado para levantar os dados da tese fosse utilizado novamente - ou seja, fosse entregue para a moradora uma máquina fotográfica -, ela registraria o crescimento comercial do bairro. “Eu gosto muito da Bela Vista, minha família vive aqui há muito tempo, não trocaria meu bairro por nenhum outro lugar da cidade”, afirma.

Na Vila Independência, o morador Aristides Domingues também demostra uma forte identificação com o bairro. “Tenho minha casa nesse bairro há muito tempo, há mais de 20 anos, não consigo deixar de viver aqui. Conheço os vizinhos e o bairro oferece uma tranqüilidade que eu ainda não vi em outro local”, afirma o morador.

Ao lado, no Jardim Terra Branca, Sebastiana Teixeira Camargo, moradora há dois do bairro, alimenta o desejo de deixar o local o mais breve possível, confirmando o que foi concluído pela professora e documentado na tese de que o bairro é considerado local de passagem. “Quero no início do ano que vem me mudar para outro lugar, de preferência na Independência, onde me identifico mais”, afirma a moradora.

No Jardim América, a exemplo da equipe que realizou a pesquisa, a reportagem também encontrou um pouco de receio dos moradores em participar da reportagem. Orlando Nunes de Barros foi o único em cinco tentativas que aceitou colaborar. “Vim de outra região da cidade, o bairro é um pouco frio, não existe um contato das pessoas. Você vive a sua vida inteira aqui sem saber quem reside ao lado”, afirma.

Para terminar, a reportagem esteve no Jardim Redentor e também notou o descaso do próprios moradores com o bairro. Claudete Fracaroli, que reside no local há mais de 30 anos, reclama disso. Ela mostra que no espaço de um quarteirão próximo de sua residência, duas casas foram abandonadas, parcialmente demolidas e invadidas pelo mato. O que antes era uma moradia popular, hoje serve apenas como refúgio para drogados, segundo ela.

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Pesquisar novas comunidades

Ao invés de refazer a pesquisa, a professora aposentada Lúcia Helena Ferraz Sant’ Agostino acredita ser interessante que uma nova pesquisa fosse realizada em outras comunidades da cidade. Ela explica que, para comparar os resultados de uma eventual nova pesquisa como a realizada há dez anos, o maior número de pessoas que participaram no final dos anos 90 precisaria participar novamente, e isso é praticamente impossível.

Mesmo que boa parte daquelas pessoas fossem encontradas e aceitassem novamente o desafio, Lúcia Helena acredita que dez anos é muito pouco para modificar o cenário urbano de um lugar. “O resultado dessa nova pesquisa seria parecido e se convidássemos novas pessoas, um resultado não poderia ser comparado ao outro para saber se as pessoas mudaram sua visão em relação ao bairro em que vivem”, explica.

A professora acredita que seria muito mais proveitoso a realização dessa mesma pesquisa em outros bairros. “Gostaria muito de saber como é a visão de comunidade de bairros como o Parque São Geraldo, Vila Giunta e Alto Paraíso. Como na época conseguimos identificar várias formas de viver em comunidade dentro de Bauru, esses bairros podem revelar outras surpresas”, sugere a professora.

Lúcia Helena explica que deixou de fora, por exemplo, a Vila Falcão, pelo fato do bairro pertencer a um contexto, estar ligado mais à história ferroviária, mas acredita que o bairro possa também render um bom trabalho.

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