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Teimosia da vida X vírus A (H1N1)

Luiz Antonio Lopes Ricci
| Tempo de leitura: 4 min

A desnutrição gerada pela alimentação insuficiente e inadequada expõe o ser humano a doenças que podem levá-lo a morte. No Brasil, o tema da fome começou a ser desnudado a partir dos anos 40, com os relevantes estudos e escritos de Josué de Castro, com destaque para Geografia da fome, publicado em 1946 e depois traduzido em 25 idiomas. A contribuição desse ilustre brasileiro, fez com que a fome deixasse de ser um tema proibido, ao analisar e denunciar as causas e conseqüências da fome aguda e crônica presentes no Brasil. Considerava a fome como uma gravíssima doença que precisava e podia ser curada.

Se antes a fome era um tema proibido, pois era vergonhoso admiti-la, hoje se admite, porém sem tanta vergonha e com risco de banalização. O perigo da “banalização do inaceitável” é real: “as tragédias, de tão vistas, se tornam paisagens comuns que não despertam mais reação. A sociedade já se acostumou com elas e age como se não houvesse nada a fazer, e cada um tivesse de cuidar da sua vida sem pensar mais no assunto” (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs). Nesse sentido, a indignação ética e a responsabilidade moral são diminuídas, acentuando-se a indiferença e resignação.

Outro tema conexo refere-se à tese defendida por Josué de Castro, segundo a qual, os pobres e oprimidos são mais fecundos. “Todos sabem que os coeficientes de natalidade mais altos do mundo são os dos grupos humanos subdesenvolvidos e famintos. Estes altos coeficientes de natalidade constituíram-se aà base de um princípio de biologia - a ‘teleonomia’ - que é a propriedade que têm todos os sistemas vivos de desempenharem as suas funções num ritmo e dinâmica que favoreçam ao máximo a sobrevivência do indivíduo e, sobretudo, a da espécie. A defesa da própria vida age potencialmente em todos os atos e comportamentos vitais. Sempre que uma espécie está ameaçada de morte, aumenta a sua capacidade produtiva e a sua multiplicação para neutralizar o fator de exterminação”.

Josué de Castro continua sua argumentação mostrando a estreita conexão entre pobreza, mortalidade, teleonomia e conseqüente aumento da taxa de fecundidade entre os pobres: “Os altos coeficientes de natalidade dos países subdesenvolvidos obedecem à mesma lei biológica: representam o esforço natural dos seus efetivos humanos para sobreviverem, visto que nestas áreas os coeficientes de mortalidade sempre foram extremamente altos. Só dispondo de um excesso de gente - a maior parte para morrer e não para viver - poderiam estes grupos perdurar através do chamado ciclo antieconômico da sua evolução populacional, que caracteriza os povos subdesenvolvidos”.

O autor estabelece uma relação entre a fome (vulnerabilidade) e a superpopulação. “Um dos fatores mais atuantes neste mecanismo é o nível deficiente de alimentação que determina uma fertilidade potencial mais elevada na mulher e uma maior capacidade fecundante no homem, numa palavra, uma capacidade de reprodução mais intensa. No fundo, é a fome um dos fatores determinantes da superpopulação, acentuando o coeficiente de natalidade e, em conseqüência, o ritmo de expansão demográfica. Se modificarmos os quadros das áreas subdesenvolvidas, as suas estruturas econômicas favorecendo o seu abastecimento alimentar adequado e, como conseqüência a baixa dos seus coeficientes de mortalidade, veremos a natureza agir ‘teleonomicamente’, fazendo também baixar os coeficientes de natalidade, como baixaram em todas as áreas de alto nível de vida: desta forma processar-se-á a regulação natural do crescimento demográfico do mundo”.

A teoria da teleonomia evidencia a força da vida em situações adversas, de risco e vulnerabilidade. Trata-se de uma “resistência” natural e complexa à morte. A teleonomia permite compreender a sobrevivência, não obstante a exposição em situações de risco. A circulação do vírus A (H1N1) expõe todos ao risco de contaminação, sobretudo os grupos mais vulneráveis (crianças, idosos, gestantes, empobrecidos). Constata-se que a comunidade científica e sanitária está sinergeticamente conjugando esforços para o controle, prevenção e cura da nova gripe. Neste momento de grande preocupação, além do controle e indispensáveis cuidados, urge resgatar e inserir o conceito de teleonomia nos protocolos e reforçar a confiança na teimosia da vida. Como os ipês, que em período de seca prolongada ficam mais floridos, também a vida, quando ameaçada, é potencializada.

O autor, Luiz Antonio Lopes Ricci, é padre, vigário geral da Diocese de Bauru e professor de Teologia Moral na Faculdade João Paulo II, em Marília

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