Articulistas

Quem é mais criminoso?

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Reportagem da Folha de 12/8/09 dá conta de que as seguradoras estão se negando a segurar cargas rodoviárias ou estão fazendo com restrições. Isso porque 9 em cada 10 cargas seguradas são roubadas. E nem adianta usar rastreador e sistema de proteção porque os ladrões conseguem desarmá-los. Há relato de um delegado contando que a polícia deu uma “batida” atrás de um caminhão com esses equipamentos e só encontrou os equipamentos no galpão de onde saiam os sinais. Caminhão e carga haviam sumido. No Estado de São Paulo, somente no primeiro semestre deste ano, o número de ocorrências foi de 3.809, sendo 711 mais que em todo o ano passado, que foi de 3.098. Quanto ao valor, de R$ 109,2 milhões no ano passado, no primeiro semestre do ano chegou a R$ 134,3 milhões.

Esse custo, seja coberto pelas seguradoras, seja pelas próprias empresas, naturalmente é repassado para o valor das mercadorias. Rouba-se de tudo, de alimentos industrializados a aparelhos eletrônicos e remédios. Caminhoneiros procuram formar comboios, quando os roteiros coincidem e há até casos de carga em carros blindados, como acontece com telefones celulares celulares. Esse tipo de crime não cresce somente em quantidade. Dos furtos, que surpreendem o caminhoneiro, que dá pela falta do veículo ou da carga, ao levantar-se em uma pousada, ao roubo num seqüestro em lugar ermo ou em congestionamentos, com o motorista largado depois em algum lugar, ao latrocínio, com a morte do caminhoneiro por reagir ou para não identificar os ladrões.

É uma situação realmente preocupante. É uma luta de estratégia e inteligência onde os criminosos, infelizmente, conseguem levar vantagem. Mas não que sejam mais capazes que a polícia e sim porque contam com a participação de outros indivíduos igualmente criminosos e de mais difícil descoberta e captura. Entre eles está a razão principal do crescimento desse tipo de crime: os receptadores. Se não houvesse quem comprasse as mercadorias roubadas só haveria roubo para uso próprio, como quem rouba uma galinha ou um cabrito para comer.

Quem é mais criminoso, aquele que rouba ou aquele que compra o roubo? Dezenas de reses têm sido roubadas aqui na região e nunca são encontradas, apesar de marcadas. Certamente, são misturadas com outras que vão para frigoríficos ou matadouros clandestinos. Como não são roubadas só para chatear o dono ou para fazer churrasco de fim de semana, quem comprou sabia que eram roubadas e, possivelmente, foi quem encomendou o fornecimento. Onde vão parar as cargas de remédios roubadas? Só pode ser em farmácias. Mas como saber quais são? E os eletro-eletrônicos? Uma parte vai para camelôs e outra para lojas. Mas quais?

Como se vê, a situação é complicada. Quando os receptadores são pegos também são enquadrados no crime, mas como é mais difícil pegá-los, o esforço têm se concentrado em tentar evitar o roubo e pegar os ladrões. Se o esforço maior fosse para descobrir os receptadores, para puni-los de forma mais severa, talvez esse tipo de crime diminuísse pela falta de mercado para os produtos roubados. Esse esforço, entretanto, não pode ficar somente a cargo da polícia. A sociedade precisa reagir, a começar evitando os produtos que são oferecidos por preços que nenhum estabelecimento correto pode oferecer. Embora seja tentador pagar menos, comprar produtos roubados é participar do roubo e pode se tornar tão ou mais criminoso que o ladrão quando é o autor da “encomenda”.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

Comentários

Comentários