Responda rápido: você gostaria que tudo o que não serve mais aos outros fosse levado até o seu lugar de trabalho? Se a resposta for negativa, saiba que foi assim que Umberto Pérsio de Oliveira, o Baiano, começou a coleção de coisas que hoje enfeitam e dão graça ao seu bar.
O estabelecimento localizado na quadra 4 da rua das Pitangueiras, no Núcleo Habitacional Presidente Geisel, se transformou num verdadeiro museu de peças ecléticas.
“Todas as coisas que você vê no bar hoje são o depoimento do tempo, a história contada pelos objetos da época. Pode não ter mais nenhum valor comercial, mas histórico, seguramente”, explica Baiano.
Ele mesmo não se preocupou em fazer um levantamento dos valores que guarda pendurados por cada canto do seu bar. “As pessoas vêm aqui e eu conto a mesma história várias vezes; repasso o que me contaram quando deixaram o objeto aqui”, explica.
O bar do Baiano no Geisel é bastante freqüentado até por estudantes universitários que vão consultar obras e jornais antigos que estão guardados no local. Logo na entrada do bar, é possível encontrar o exemplar de um jornal da época da escravidão. Na verdade, a edição data do dia 14 de maio de 1888.
Baiano garante que já recebeu gente que entende de história e garante que a edição do jornal realmente ganhou as bancas naquele dia histórico, quando a imprensa brasileira anunciava o fim da escravidão dos negros no País.
Ainda dessa época, o proprietário do bar guarda uma espécie de sandália de ferro que era presa aos pés dos escravos para evitar a fuga. Cada sandália pesa ao menos cinco quilos, o que dificultaria ao máximo a fuga pela fazenda. “Tudo aqui já teve uma utilidade no passado, já serviu para algo, para o bem ou para o mal”, explica.
Baiano guarda também a marmita utilizada pelos soldados na revolução de 1932. A identificação do soldado vem apenas com o número: 48. Era nesses recipientes que os soldados levavam sua comida para as trincheiras.
Também fazem parte da coleção relógios, máquinas fotográficas, máquinas de escrever e diversos discos e vitrolas. Guardo tudo, sem mais valor de mercado, mas tem valor histórico”, afirma baiano. De acordo com ele, as coisas começaram a chegar no bar há pelo menos 18 anos. “Daí em diante as pessoas iam passando por aqui e deixando algo que pertenceu ao pai ou a algum parente, mas que para elas não tinha mais valor.”
Baiano conta que já recebeu a visita de muitas pessoas de outras cidades que vão até o bar para conhecer e conferir as relíquias guardadas por ele. “Empresto muita coisa para exposições de museus pela cidade e região”, conta.
Um exemplo de algo sem valor de mercado são as centenas de notas guardadas nos antigos carros fortes que seguiam de uma cidade para outra dentro dos trens. Era uma espécie de malote onde podia se carregar uma boa quantidade de dinheiro.
Baiano mostra uma grande quantidade de notas com numeração em série, que deixaram de ter valor rapidamente devido à fragilidade do dinheiro brasileiro no passado.
Para tudo, Baiano tem uma explicação. O bar reúne também algumas estátuas místicas que, de acordo com o dono do bar, tiveram sua serventia no passado. A visita ao bar do Baiano no Geisel é, sem dúvida, uma viagem histórica em que se pode ver e tocar objetos que testemunharam o passado.
Além das peças históricas, Baiano também guarda algumas coisas engraçadas, como o “chapéu de corno” (que vem com espaço para os chifres), as pingas com cobras e caramujos dentro, além de uma montanha de tampinhas de refrigerantes que fica em cima do balcão.
“Não abro mão de nada, muita gente já veio aqui tentar comprar isso ou aquilo. Estou aberto para receber novas doações, pois terá sempre um espaço aqui”, garante.
Confira nas fotos a seguir algumas relíquias expostas do bar do Baiano.