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Entrevista da semana: Padre Enedir Gonçalves Moreira: Padre Enedir, o ‘Mensageiro da Paz’

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 10 min

A vontade de doar-se pelo irmão e passar os dias voltados à caridade e ao trabalho religioso surgiu para o padre Enedir Gonçalves Moreira ainda na conturbada adolescência, quando os jovens ficam confusos e cheios de dúvidas sobre “o que ser quando crescer”. No início, muitas foram as dúvidas mas a vocação por trabalhar pela humanidade sempre esteve presente nos ideais do menino que tinha “mania” de rezar sobre cada país do mapa-múndi.

Enedir sentiu e seguiu os sinais da vocação e, aos 19 anos, ingressou no seminário com a certeza de que, para sua vida, ser padre seria a melhor forma de ajudar os outros. Não encontrou obstáculos na família, que sempre o apoiou nas decisões e seguiu os passos do padre Luiz Cechinato, uma figura muito querida e admirada por Enedir devido a sua vida de dedicação ao próximo.

Homem bem humorado e de fácil acesso, que produz e apresenta o programa “Mensageiro da Paz” na rádio Veritas FM diariamente às 6h, 12h e 18h, fala sobre suas missões evangelizadoras e do prazer em ajudar o próximo. Cita como exemplo quando passou uma noite na casa de uma família e, com isso, ajudou um senhor a se livrar do alcoolismo.

Atual pároco do Santuário do Sagrado Coração de Jesus (Paróquia Universitária), ele fala ao Jornal da Cidade sobre infância e adolescência, descoberta da vocação, conhecimento, projetos e vida religiosa. Confira os principais trechos da entrevista.

JC - O senhor está para completar 25 anos de sacerdócio. Qual é o grande presente por todos esses anos?

Padre Enedir – A celebração será no dia 13 de setembro às 10h no Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Conto com a presença de todos que tive contato durante esses anos em Bauru. Sempre digo que, se há pessoa que deve ser grata a Deus, sou eu. Gosto da vida. Amo a vida. Parece que nasci sorrindo e, simultaneamente, estou colado ao sofrimento, desde à minha infância. Conheço-o profundamente. Sei, porém, que ele é muito passageiro e a vida, ao contrário, transcende tudo. A grande recompensa acontece no cotidiano, vivendo a verdade do que diz Jesus: “E todo aquele que, por minha causa, deixar pai, mãe, irmãos, irmãs, mulher, filhos, terras ou casa, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mt 19, 29). E o “grande presente” é descobrir que Deus está muito próximo de cada um de nós e descobrir o seu grande amor.

Jornal da Cidade – Quando foi a ordenação do senhor?

Padre Enedir Gonçalves Moreira – Aconteceu no dia 7 de setembro de 1984, em Capão Bonito (SP) na Diocese de Itapeva.

JC - Como o senhor descobriu a vocação para o sacerdócio?

Padre Enedir - A vocação desabrocha quando Deus vai dando os sinais e o segredo é estar atento. Desde criança eu sentia um forte desejo em fazer o bem à humanidade. Para você ter idéia, eu pegava o mapa-múndi e rezava pelo povo de cada país. Nunca fui coroinha e não pensava em ser padre. Foi quando, em novembro de 1971, missionários redentoristas chegaram à minha cidade e eu senti algo diferente. Organizei um grupo de dez amigos e, no início de fevereiro de 1972, passei uma semana no Seminário Santo Afonso, em Aparecida. Gostei muito, porém, meu pai não permitiu que eu ficasse lá porque não era maior de idade e ele não liberava a saída dos filhos antes dos 18 anos. Eu também admirava muito a figura do padre Luiz Cechinato, uma pessoa que se doava inteiramente à religião e à caridade e concluí que, para fazer bem à humanidade, eu deveria ser padre. Com 19 anos eu entrei para o seminário.

JC - Como a família reagiu?

Padre Enedir - Minha avó paterna pediu a graça de ter um neto sacerdote e meu pai sempre nos dizia que não iria interferir em nossas escolhas. Tanto ele, como minha mãe, sempre respeitaram as escolhas dos filhos.

JC - Chegou a pensar em seguir outro caminho?

Padre Enedir - Sempre gostei do trabalho. Na infância, quis ser engraxate e meu pai preparou a caixa para mim. Quis ser sorveteiro, ele conversou com um amigo e eu saí vendendo sorvetes. Depois, vendi verduras da escola para colaborar com a merenda e, aos 15 anos, fui o diretor responsável da Folha de Borborema. Também trabalhei em escritório de contabilidade e despachante. Gosto muito de política. Certa vez fiz uma avaliação psicológica e levei um susto quando a psicóloga me perguntou: “você já pensou em ser padre? Se não, pode pensar na política”. Os testes realmente revelaram os traços de minha vocação. Optei pelo sacerdócio.

JC - O senhor fez faculdade de psicologia?

Padre Enedir – Sim, e também de filosofia e teologia. Cursei psicologia na Universidade do Sagrado Coração (USC) na intenção de buscar instrumentos úteis para o acompanhamento pastoral. A busca pelo conhecimento de natureza humana não só é necessária, como é um desafio fascinante.

JC - Já realizou missões evangelizadoras?

Padre Enedir – Sempre gostei de missões e até pensei em ser um missionário redentorista. Quando seminarista, coordenei e realizei missões nas férias. Fizemos um belo trabalho em Presidente Alves e acompanhei missões em paróquias da Diocese de Cristalândia.

JC – Fale das lembranças que guardou das missões evangelizadoras?

Padre Enedir – Tenho uma grata lembrança de Holambra II. Havia uma pessoa muito estimada no lugar que começou a beber e, conseqüentemente, prejudicar a si e aos seus. Ele sempre me convidava a visitar sua família e, durante uma missão realizada, o fiz. Em uma noite bati em sua porta e disse que iria dormir ali. Foi quando ele disse que justamente no dia em que estava sozinho o padre iria passar a noite em sua casa. Ele me acolheu com todo o cuidado. Era uma noite fria e percebia que ele fora várias vezes ao meu quarto ver se eu estava coberto. Lembro-me que ele contou para todos a sua alegria. Depois de alguns dias, eu celebrava uma missa e ele entrou, embriagado, me abraçando e dizendo que eu havia passado a noite em sua casa e que iria parar de beber. Passou a freqüentar os Alcoólatras Anônimos (AA) e não bebeu mais. Isso foi em 1987.

JC - O senhor já recebeu títulos?

Padre Enedir – Recebi os títulos de “Cidadão Capãobonitense”, “Cidadão Paranapanemense”, da “soberana Ordem dos Cavaleiros Iteanos”, de “Cidadão Bauruense” e “Prêmio Atenção”.

JC - Qual é o valor deles para o senhor?

Padre Enedir – Confesso que não me sinto totalmente confortável com o recebimento de um prêmio porque, em uma jornada espiritual, devemos estar sempre atentos ao nosso “ego”, que é o inimigo “número um” do ser humano. Devemos ser simples e gratos.

JC - Como o senhor se define?

Padre Enedir – Essa é uma pergunta difícil. Desde criança, eu me percebia bastante sociável e, ao mesmo tempo, reservado. Os professores sempre me disseram que eu sou um líder nato, comunicativo, carismático e acredito ser verdade. Embora muitos não acreditem, acho que tenho um certo grau de timidez.

JC – O senhor tem um programa na Rádio Veritas. Fale um pouco dele.

Padre Enedir – Lancei a “Campanha pela Paz” em 1999 com o lema: “Paz. Levante Esta Bandeira” e a oração-mantra: “Sabedoria infinita, eu te peço a paz para cada pessoa presente neste Planeta.” Os programas foram veiculados, inicialmente, na rádio Auriverde, na TV Preve e na extinta TV SP-Centro. Depois, iniciei o programa “Mensageiro da Paz”, na Veritas FM.

JC – Como foi a construção do Santuário do Sagrado Coração de Jesus. (Paróquia Universitária)?

Padre Enedir –Tem sido um grande desafio. Encontrei pessoas capacitadas que estiveram e estão comigo e o santuário já é uma realidade. Agora estamos em fase de acabamento. Jurandyr Bueno Filho, arquiteto da obra, dizia com freqüência em nossas reuniões que esse santuário coroava todas as suas obras. O sonho dele era colocar o vitral, um projeto de búlgaros, uma verdadeira arte sacra. Aproveito e faço um apelo de ajuda à comunidade. Quem se interessar pela causa, basta entrar em contato com a Paróquia pelo telefone (14) 3879-0001.

JC – O que é a “Casa do Clero”

Padre Enedir – Sempre me questionei: “Seria possível a existência de um centro voltado, única e exclusivamente, ao atendimento dos presbíteros?”. A idéia foi amadurecendo e se tornando realidade. No dia 5 de abril de 2006, uma assembléia geral elegeu e deu posse à primeira diretoria da Casa do Clero Cura D’Ars e aprovou o estatuto. Amparados pela Conferência Episcopal Italiana, pela Congregação de Jesus Sacerdote e graças a algumas outras contribuições locais, no dia 18 de novembro deste ano, foi lançada a pedra fundamental da obra. A Casa do Clero é uma realidade e alimentamos a esperança de poder contar com novos colaboradores para o término do projeto. Quem quiser saber mais pode visitar o site www.casadocleero.org.br ou se comunicar pelo telefone (14) 3296-2244 ou e-mail santacatarina @bispadobauru.org.br

JC – Quais são as obras de caridade da paróquia, hoje?

Padre Enedir – Nós não possuímos terreno ou estrutura física e já atuamos no Jardim Nicéia. Também já trabalhamos, em parceria com a USC, na Diocese de Cristalândia (TO). Depois, sentimos o desejo de construir uma creche. Inicialmente, pensamos no Jardim Nicéia, mas chegou até nós uma solicitação para que a paróquia assumisse a Creche e Berçário São Paulo, na Vila São Paulo e assumimos a causa que, hoje, é a “pupila dos olhos” da paróquia. São 120 crianças que precisam e que recebem ajuda.

JC - Como o senhor vê a caridade?

Padre Enedir – O bem não faz alarde ou barulho. Infelizmente, os atos de generosidade não têm muito espaço nos meios de comunicação. Às vezes, dá a impressão de que a força do mal fala mais alto. São poucos os elogios e raro o reconhecimento. Em todos esses anos de vida e ministério, tenho sido testemunha ocular de muitos gestos caridosos. É verdade que há uma tendência forte, na sociedade contemporânea, para o egoísmo. Há segmentos que têm uma orientação fundamentalmente egoísta, porém, em meio às contradições, a solidariedade se faz presente.

JC - O que mais falta às pessoas hoje?

Padre Enedir – O conhecimento real de Deus. Preste atenção: não me refiro ao discurso sobre Deus, pois a cada dia surgem novos e são poucas as religiões que levam seus adeptos a experienciar Deus. Há uma distância muito grande entre o discurso e a prática. Quanto mais próxima de Deus uma sociedade, mais pacífica será e, quanto mais distante, mais violenta. Falta, no mundo, uma opção corajosa para o amor, na significação que Cristo dá a ele.

JC – E o que é preciso para ter esse amor e paz?

Padre Enedir – O que respondi na pergunta anterior somado ao conceito de justiça. É preciso ter consciência de que somos todos iguais em dignidade. Não é justo, em nome de Deus ou de qualquer sistema ideológico, viver o contrário. Para se ter paz é preciso também meditar. A meditação é um instrumento indispensável para se atingir a paz interior, isto é, a ecologia interna e, também, a paz social ou ecologia externa. As religiões deveriam ser menos ritualistas e barulhentas e orientar seus adeptos para a experiência da meditação. A proveito o espaço oferecido e deixo um recado às famílias humanas: “Amém a Deus acima de tudo e ao próximo como a vocês mesmos”.

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Perfil

• Nome: Enedir Gonçalves Moreira

• Idade: 53 anos

• Local de Nascimento: Braúna/SP

• Signo: Escorpião

• Hobby: Caminhar

• Filme preferido: “Fernão Capelo Gaivota”

• Estilo musical predileto: Da clássica à sertaneja

• Livro de cabeceira: Bíblia

• Time: Santos

• Para quem dá nota 10: Àqueles que estão a favor da justiça e da paz

• Para quem dá nota 0: Não se dá nota zero

• E-mail: enedirmoreira@yahoo.com.br

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