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O diabo assiste TV

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A briga da TV Globo contra a TV Record não vai acabar tão cedo, nem que o Senhor faça chover enxofre e fogo. O pior é que nem uma das duas está preocupada com o telespectador ou com a qualidade da informação. Muito menos com o cumprimento das suas obrigações constitucionais. Como “concessões” públicas devem trabalhar pela educação, cultura, informação e criações de espírito. Colaborar para o avanço social e o aperfeiçoamento das instituições. O interesse de ambas passa ao largo desses preceitos. Disputam a liderança e o dinheiro que isto representa. Triste é o país que tem que escolher entre a liderança da Globo e o esforço dos concorrentes para derrubá-la.

Tudo começou - ou recomeçou - quando o Ministério Público de São Paulo ofereceu denúncia, acatada pela Justiça, contra Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurg) e outros nove membros. As acusações falam em formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e outros mimos. As doações dos fiéis são isentas de impostos se aplicadas na igreja e suas obras sociais. Segundo o MP estão sendo desviadas para paraísos fiscais, de onde voltam para enriquecer os bolsos dos pastores. Da acusação à condenação o caminho é longo e ninguém sabe aonde vai dar. O inusitado é que deste fato a Globo se aproveitou para desencadear uma série de matérias contra a Iurg e o seu principal elemento de divulgação, a TV Record. De um lado William Bonner e Fátima Bernardes. Do outro respondem Celso Freitas e Paula Padrão, que também já pertenceram à “Vênus platinada”. Quando o presidente Kennedy morreu num atentado, o âncora da CBS Walter Concrite não utilizou mais do que cinco minutos no telejornal para anunciar o acontecimento, emocionar milhões de telespectadores e emocionar-se. Dois minutos de telenotícia é uma eternidade. Globo e Record chegaram a utilizar até 10 minutos dos seus principais jornais, para se desancarem. Dizem os especialistas midiáticos que o fim do mundo será anunciado pela televisão em modestos cinco minutos. Os editores da Record desenterraram um velho documentário inglês que aborda tristes verdades já sabidas contra a TV Globo, desde a sua origem com o dinheiro do grupo Time-Life. Preservando a segurança do país, dinheiro estrangeiro não pode financiar meios de opinião. A Constituição proíbe. Segue-se o episódio da tentativa do Jornal Nacional de mudar o resultados das eleições para o governo do Estado do Rio de Janeiro, em detrimento de Leonel Brisola. A Globo anunciava resultados falsos das urnas. Culmina o filme com a famosa farsa da montagem do último debate entre Collor e Lula, que teria desequilibrado as intenções de voto e dado a vitória ao primeiro. São pecados veniais que vão acompanhar a emissora até o final deste século.

Em vez de responder às denúncias, a Universal prefere mostrar obras sociais das suas filiais em 174 países, nos quais reúne 8 milhões de fiéis. William Waack, no Jornal da Globo, volta à carga e mostra a repercussão no exterior das denúncias contra Edir Macedo, acusado de comprar imóveis, carros e a emissora de tevê com o dinheiro do dízimo. Querem discutir ética num país onde a moralidade é relativizada pelo patrimonialismo dos políticos que deveriam dar exemplos de dignidade. Lula-Collor-Renan-Sarney, afinal, hoje estão no mesmo barco. Até trocam afagos e elogios. O senador Collor diz que “obra” todos os dias na cabeça do jornalista da “Veja”. Talvez porque não pudesse fazer nada melhor do que já obrou no Brasil inteiro, sem excluir a poupança dos brasileiros.

De volta à briga Record X Globo, uma tem rabo preso no presente, e outra no passado. Disputam audiência em vez de qualidade. Inundam os telespectadores com overdoses da realities. A Fazenda x Jogo Duro. A tevê do bispo já conseguiu 24 a 14 num Ibope. Uma das maiores distâncias da década. A Globo recebeu o índice como suprema humilhação. Exagero. Ela ainda tem Gloria Perez dando show de teleficção, embora isto não represente qualidade.

O bispo Edir Macedo diz que “quem serve a Deus é injustiçado e caluniado. Quem serve a si mesmo é admirado”. O que não e pode esquecer é que o foco da igreja é pregar a palavra de Deus. A comunidade evangélica não pode ser jogada numa guerra. Televisão, para a igreja deveria ser detalhe. Aí é que mora o perigo. O diabo deita e rola é nos detalhes.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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