Cultura

Ferréz trabalha para resgatar o senso crítico

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

O resgate do senso crítico é um trabalho duro, principalmente em comunidades pobres, que sobrevivem à marginalidade e à violência. Mas essa é a missão de Ferréz. Escritor, cronista, roteirista e rapper, ele esteve ontem em Bauru, onde o DVD “Ferréz - Literatura e Resistência” foi exibido no Sesc. Após a apresentação, os interessados tiveram a oportunidade de ‘trocar idéia’ com o cara que, apesar dos pesares da vida, também prega esperança.

Graças a ela, deixará Capão Redondo, na Grande São Paulo, para percorrer um circuito de 11 cidades iniciado em Bauru. Quer mostrar idéias que deram certo na periferia porque as pessoas acreditaram nelas. Seja na arte ou esporte, tiveram força para seguir adiante. “Tem hora que desanima. Mas quando você encontra um moleque na rua que fala que leu um livro meu pela primeira vez e depois disso não parou mais de ler, é prazeroso”, comenta.

Ferréz começou a escrever aos 7 anos. Acumulou contos, versos, poesias e letras de música. Antes de se dedicar exclusivamente à literatura ‘marginal’, trabalhou como balconista, vendedor de vassouras, auxiliar-geral e arquivista. Seu primeiro livro, ‘Fortaleza da Desilusão’, foi lançado em 1997 - com patrocínio da empresa onde trabalhava. A notoriedade veio com Capão Pecado (lançado em 2000), que está na terceira edição. O romance conta o cotidiano violento do bairro do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, onde vive o escritor. “Meu povo é a periferia, embora a classe média leia e a alta também. O moleque que cheira é meu público, o moleque que está preso é meu público, a dona de casa abandonada pelo marido é meu público”, diz. Mas assim como amigos e vizinhos da comunidade, nem sempre a esperança amanhece com ele. Em alguns dias, ao abrir os olhos, percebe ao seu lado revolta, por exemplo.

“São 500 anos de manipulação. É difícil mesmo. É uma batalha ingrata. Sou a pedrinha de Golias. Uma formiga. Mas tem milhares de formigas pelo mundo. Converso com gente do México, Guatemala, do Paraguai, da Itália. O mundo tem um monte de gente legal. No Maranhão, no Piauí, em Brasília, Pernambuco”, afirma.

1DASUL

Para unir a comunidade de Capão Redondo, em abril de 1999, foi criada a 1DASUL, que tem como objetivo ser uma marca de periferia - feita e usada por pessoas do bairro. “O nome vem da idéia de todos sermos 1, na mesma luta, no mesmo ideal. Por isso somos todos 1 pela dignidade da Zona Sul”, comenta Ferréz em site e material de divulgação. De acordo com ele, é também uma resposta à toda violência que é creditada ao Capão Redondo.

“É fazer os moradores terem orgulho de onde moram e, conseqüentemente, lutarem por um lugar melhor, com menos violência gratuita e mais esperança. A identidade vem a partir do momento que as pessoas entendam e amem sua história. Não tem como ter amor a um país que você não sabe a história”, acrescenta. A marca da periferia - criada para substituir outras importadas como Nike, Forum e Adidas - tem também um símbolo, um brasão.

Tem a forma de fênix e o número 1 em destaque. “O dono do poder cria símbolos, estátuas e assim consegue nos oprimir. Nós estamos nos primeiros passos de também termos nossos símbolos. Afinal, temos uma história de lutas e vitórias também. Ao pôr a 1DASUL no corpo também está usando uma idéia de mudança. Está somando para a auto-estima do nosso povo. Não precisa se fantasiar de americano para ser feliz”, acrescenta.

Com ou sem marca, o que ele mais quer é que as pessoas repensem tudo o que assistem ou lêem na mídia, sempre.

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