Bairros

Andarilho machucado que ‘acampou’ na rua preocupa a vizinhança

Por Juliana Franco | Com Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 3 min

Há pelo menos quatro dias, a cena se repete: um morador de rua, que atende por Nélio, está acampado na rua Francisco Alves, na Bela Vista, em Bauru. No sábado, estava na quadra 14 e, ontem, na quadra 16. Ele passa o dia e a noite hora sentado, hora deitado, apoiando a cabeça num travesseiro, entre a calçada e a rua. Ontem à tarde, estava deitado na rua, perto da sarjeta, situação que está preocupando a vizinhança pelo risco dele sofrer um acidente.

Aliás, ele está com escoriações nos dois joelhos. Moradores das imediações contam que há quatro dias ele apareceu com machucado e se recusa a receber socorro do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que foi acionado para atendê-lo. Conhecido pela vizinhança, há mais de um ano Nélio ganha alimentos e roupas dos moradores da região.

O JC esteve no local e tentou conversar com o morador de rua, que disse não querer dar entrevista. Contou apenas que conhece um homem em Assis. Quando a reportagem chegou, Nélio estava deitado na rua, perto da sarjeta, em um travesseiro doado por uma moradora. Algumas pessoas tentavam colocá-lo na calçada, mas ele se recusava.

Ele comia pão com manteiga e segurava uma sacolinha com outro pão. A calça que vestia estava rasgada, mostrando os dois joelhos ralados e a canela sangrando. Jair Franco Pais, morador da quadra 16 rua Francisco Alves há um ano, conta que Nélio sempre recebe ajuda da vizinhança. “Desde que cheguei no bairro, ele é conhecido dos moradores. Sempre recebe comida, roupa, até cigarro eu dou para ele. Mas o problema é que ele não quer ficar com ninguém”, explica.

“Há uns seis meses, eu ajudei um outro morador de rua, que atualmente mora comigo. Até disse para minha mulher que eu queria ser rico para ajudar todo mundo”, acrescenta. Outra moradora da região, que deu o travesseiro a Nélio e não quis se identificar, acredita que ele foi espancado ou se machucou ao cair. “Tudo indica que alguém bateu nele, como já aconteceu uma vez. Ele sempre anda pela região, conversa e conhece os moradores, mas está com muito medo”, opina.

Para a mulher, em alguns momentos parece que Nélio tem problemas de memória. “As pessoas dão banho nele, dão roupas, mas ele se recusa a morar com alguém e a ser atendido pelo Samu”, acrescenta. Pelas regras do Samu, para ser atendido a pessoa tem de querer receber ajuda e entrar na ambulância do órgão, onde os procedimentos necessários são realizados ou feito encaminhado para unidade de saúde ou órgão de acolhimento.

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Veterinário segue em tratamento

Em março deste ano, um caso semelhante, do médico veterinário Marcelo Carlos de Almeida, que perdeu tudo e se tornou alcoólatra e andarilho em Bauru, sensibilizou antigos amigos, leitores e pessoas da comunidade. Ele foi encontrado pela reportagem do JC numa casa abandonada da quadra 11 da rua Bandeirantes, no Centro, quando contou seu drama de morar na rua e mostrou o diploma universitário.

No dia seguinte, a veterinária Eliana Cristina Ribeiro, colega de faculdade de Almeida, passou a procurá-lo pelas ruas de Bauru, até encontrá-lo machucado, sujo e alcoolizado. Ele aceitou ajuda e foi encaminhado a uma clínica de recuperação, onde está até agora apesar de várias fugas e retornos.

Ao saber do outro andarilho que está acampado na rua Francisco Alves, conhecido por Nélio, Eliana novamente se dispôs a tentar ajudar. “Quem sabe o Marcelo conhece (o andarilho) e ajuda em alguma coisa. Vou passar por lá e ver a situação”, disse ela ontem à noite.

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