Resido num apartamento na região central. Tenho o hábito saudável de caminhar pelas ruas da cidade. Às vezes pego o rumo norte: rua Alto Acre, Alves Seabra, Boa Esperança, até o Parque União. Outras ocasiões vou para o sul: alameda Pinheiro Brisolla ou Getúlio Vargas, até o aeroporto. Para variar me encaminho pela avenida Rodrigues Alves, rumo à avenida Cruzeiro do Sul, até o DER-Bauru (rumo leste). Finalmente, no rumo oeste: rua Campos Salles, dos Andradas, Nilo Peçanha, até o Estádio do Esporte Clube Noroeste.
Vinha eu descendo, numa noite destas, a rua 13 de Maio rumo ao meu apartamento, próximo da Igreja Santa Terezinha. Aproximou-se de mim uma mulher, de uns 30 anos de idade. Era negra, paupérrima, uma moradora de rua. Era uma daquelas pessoas consideradas párias da sociedade. Com muito receio de me incomodar, ela disse: “Moço, por favor, me dê um cigarro”. Sou avesso a qualquer tipo de discriminação. Não era eu melhor do que ela. Ela não era pior do que eu. Éramos dois seres humanos dispostos em estratos sociais antagônicos. Apenas isto.
“Meu amor, desculpe-me, mas não fumo”, disse a ela, com voz pausada e suave. Para meu espanto ela irrompeu num choro e disse: “É a primeira vez em minha vida que alguém me chama de meu amor!” Fez um gesto inesperado, no sentido de beijar minha mão. Tentei impedi-la porque não queria ficar numa situação de superioridade, mas ela beijou. Ato contínuo, ela seguiu o seu caminho. A sociedade separa os seres humanos por raça, opção sexual, poder aquisitivo, deficiência física ou mental e até pela região do país onde nascem.
Gilberto Sidney Vieira