Articulistas

A roça fica muito longe

Paulo César Razuk
| Tempo de leitura: 5 min

Todos os organismos vivos, inclusive o homem, têm entre si e com o meio-ambiente uma teia de relações complexas. Os elementos químicos, criados há bilhões de anos, através de reações nucleares no coração de estrelas que explodiram, são trocados continuamente entre os seres vivos e o meio. O carbono, capturado do ar por uma planta, fará parte da folha e depois do músculo de um animal ou ser humano que se alimenta desta folha. Após algum tempo, ele retornará ao solo ou ao ar quando este ser vivo se decompor. O oxigênio liberado pela planta, quando da fabricação da folha, será respirado por alguém que, ao transpirar, irá liberar uma molécula de água que pode ter vindo da chuva, de um rio, do solo ou já ter circulado pelo corpo de um dinossauro.

Nós temos uma visão truncada da vida. As plantas, os animais e os insetos que vemos representam, na realidade, uma parte ínfima da vida sobre a Terra. Em uma colher de sopa de solo fértil fervilham mais de 50 milhões de organismos microscópicos. Em um metro quadrado deste mesmo solo, é possível encontrar mil espécies diferentes de invertebrados, que transformam plantas e animais mortos em húmus, reciclando a vida. Considerando que em nosso corpo existem dez vezes mais bactérias do que a quantidade de células, quem somos nós, verdadeiramente? Sem estas outras formas de vida, não somos nada! Albert Einstein disse uma grande verdade: se as abelhas desaparecerem, a espécie humana não duraria mais do que quatro anos.

Nossos antepassados tiveram pouca influência sobre as plantas e os animais, mas, hoje, a agricultura moderna promoveu a homogeneização das culturas, tanto que a quase totalidade da produção agrícola é reduzida a, aproximadamente, 30 espécies vegetais e 14 espécies animais. Para alguns especialistas, esta uniformização da biodiversidade doméstica fragiliza nossos recursos e traz sério risco para a segurança alimentar. Para outros, a sincronização de algumas práticas como as datas de plantio e colheita, o uso massivo de adubos, defensivos e pesticidas agridem brutalmente o homem, a fauna e a flora selvagens.

É preciso considerar também que nós não praticamos a agricultura só para nos nutrir. Perto de 40% das terras cultiváveis de nosso planeta estão degradadas e um número crescente delas é utilizado na produção de roupa, papel e combustível.

O cultivo do algodão ocupa 2,5% da área cultivável do planeta e absorve 25% de toda produção de inseticidas. A área plantada com eucalipto cresceu cinco vezes em 50 anos. A produção desta árvore é rápida, mas ela consome uma quantidade fabulosa de água. Mais da metade dos cereais comercializados não serve ao homem; alimentam animais ou motores, pois, são transformados em combustível e normalmente, cultivados em terras desmatadas ou férteis.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o transporte aéreo de alimentos frescos provoca a emissão de quatro a cinco vezes seu peso em gases que contribuem para o efeito estufa. Este mesmo estudo mostra que os diferentes elementos que entram na composição de um simples pote de iogurte com polpas de frutas percorrem, em média, nove mil quilômetros de estradas, naturalmente, consumindo diesel.

A pressão demográfica tem obrigado a agricultura a se mecanizar, a montar usinas de alimentos e a produzi-los, em grande quantidade, desconectados de seu ciclo natural. Um agricultor que acompanhou todo esse desenvolvimento tecnológico produz hoje 200 vezes mais do que em 1950.

Em 2008, os alimentos geneticamente modificados ocuparam 125 milhões de hectares em 25 países e neles se encontram 72% da soja, 47% do algodão, 23% do milho e 21% da colza ou canola (CANadian Oil Low Acid). O impacto desses alimentos sobre o meio-ambiente, sobre a saúde, com a eventual disseminação de genes, ainda suscita muita discussão, mesmo porque existem várias maneiras de modificá-los já que a produção agrícola varia de um ano para o outro e depende das características de cada solo.

Para satisfazer a uma demanda crescente, a pecuária se generalizou. Hoje nós não somos os mais numerosos do planeta, perdemos para os bois. A intensificação da pastagem traz consequências danosas para o meio-ambiente: estes animais precisam de espaço e avançam sobre a floresta amazônica. Ainda segundo a FAO, a agricultura e a pecuária fornecem 99% das calorias consumidas pela humanidade, mas são responsáveis por 50% das emissões de metano, um gás de efeito estufa vinte e uma vezes pior que o dióxido de carbono. O aumento da turbulência nas altas camadas da atmosfera é uma das consequências desse efeito.

Para se produzir um quilo de milho, se usa entre mil e dois mil litros de água; para se produzir um quilo de carne, o boi, quando confinado, precisaria de sete quilos de milho. Isto significa destinar entre sete e 14 mil litros de água para se obter um quilo de bife! A água, muita vezes, é invisível: ela é utilizada para produzir um produto embora não esteja presente nele. Uma taça de café ou uma folha de papel consomem dez litros... um simples tomate requer 13 litros dessa água virtual, mais do que dispõem muitos seres humanos! O fato é que as pessoas nunca estiveram tão distantes destes assuntos, tanto que muitas crianças chegam a pensar que carnes e legumes são produzidos nos supermercados! Este alheamento é o resultado óbvio da urbanização; a população da cidade quer saber, basicamente, o que acontece ao seu redor - a roça fica muito longe, mas já passamos pela encruzilhada que definirá o futuro do planeta.

O autor, Paulo César Razuk, é titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

Comentários

Comentários