Cabul - O governo do Afeganistão ordenou ontem que meios de comunicação ocidentais e afegãos não falem de violência durante as eleições presidencial e provinciais que acontecerão amanhã para que o medo não impeça os cidadãos de irem votar. O movimento fundamentalista islâmico Taleban já ameaçou realizar ataques no dia da votação e pediu aos cidadãos que fiquem em casa.
Somente ontem 22 pessoas morreram em diferentes ataques ocorridos em várias regiões do país. Entre os mortos estão militares da Otan (a aliança militar ocidental); equipes da Comissão Eleitoral Independente, a entidade afegã que é responsável pela organização e realização do pleito; e um candidato a conselheiro provincial.
O governo assinou dois decretos. O primeiro - e mais polêmico - é do Ministério de Relações Exteriores e proíbe a veiculação de informações sobre casos de violência das 6h às 20h de amanhã (das 21h30 de hoje às 12h30 de amanhã, em Brasília).
Há duas particularidades. A primeira é a de que o texto não expõe fundamentos legais para a decisão nem informa eventuais consequências do seu descumprimento; e a segunda é que a versão em inglês dos documentos usa o termo “request”, que seria um “pedido”, no entanto, segundo a agência de notícias Reuters, a versão original, em dari - um dos idiomas oficiais do país -, afirma que a veiculação de notícias está “estritamente proibida”.
Desde a deposição do Taleban do poder, em 2001, os meios de comunicação afegãos cresceram muito. Há, atualmente, TVs e rádios privadas, bem como jornais e revistas.
Os ataques que aconteceram em diversas partes do país elevaram o grau de alerta para os problemas que o Taleban pode gerar para o pleito.
Com a censura à mídia, o governo pretende garantir um comparecimento mínimo para que todo o processo - que custou mais de US$ 225 milhões a doadores internacionais - tenha alguma legitimidade e para que o presidente eleito - ou reeleito, já que Hamid Karzai é candidato - tenha força para lutar contra as graves dificuldades do país.
O Taleban, que já assumiu parte dos atentados, alertou a população para que não vá votar porque as eleições são uma mentira inventada pelos Estados Unidos e porque haverá ataques contra locais de votação. Somente ontem, duas escolas que seriam utilizadas como locais de votação foram atingidas por foguetes lançados por insurgentes, em Logar. Segundo o governo afegão, parte dos locais de votação poderão ficar fechados, por questões de segurança. Em tentativa de colaborar para aumentar o comparecimento às urnas, a Otan (aliança militar ocidental) anunciou que mais de 100 mil homens das tropas internacionais abandonarão suas operações especiais, amanhã, para trabalhar na segurança dos eleitores.
que, no dia das eleições, seus 64,5 mil homens ficarão concentrados em proteger os eleitores e não farão nenhuma operação especial. Segundo o governo afegão, cerca de 12% dos 7.000 locais de votação poderão ficar fechados, por questões de segurança.
Em Bruxelas (Bélgica), a Comissão Europeia (CE) informou que os seus observadores viram problemas no procedimento de registro dos eleitores que geram “potencial fraude”. Já a ONG Human Rights Watch (HRW) expressou sua preocupação com violência, fraude e intimidações que poderão comprometer o bom desenvolvimento das eleições.