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Depois de 30 anos, Marina deixa um PT desgastado e em crise

Por Folhapress | AE
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Brasília - Num primeiro passo para disputar a sucessão presidencial no ano que vem pelo PV, a senadora Marina Silva (AC) anunciou ontem a saída do PT, partido pelo qual militou por 30 anos. A decisão de Marina ocorreu num momento de profundo desgaste vivido pela legenda que, sob pressão do presidente Lula, votou a favor do arquivamento dos processos por quebra de decoro parlamentar abertos no Conselho de Ética contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM).

Marina disse que, livre das amarras do PT, agora começará de fato as conversações com a direção do PV. “Para fazer o diálogo de filiar-me ao PV eu precisava primeiro decidir se iria ou não sair do PT, por compreender que não era correto ficar articulando minha filiação a um outro partido antes de sair do Partido dos Trabalhadores”, disse Marina numa concorrida entrevista coletiva convocada previamente por sua assessoria. “A partir de agora me sinto livre para fazer essa transição”, anunciou Marina.

A senadora estava bem à vontade. Concluiu que falou por um tempo muito demorado durante suas justificativas iniciais e propôs-se a responder a todas as perguntas. Em momento nenhum, porém, anunciou que é candidata. Sempre que esse tema foi tratado, disse que é um novo sonho, e que só agora começa a trabalhar de verdade nele. Marina vestia um terninho marfim, calçava sapatos pretos com plataforma de cinco centímetros e tinha os cabelos presos num coque, em contraste à sua vestimenta tradicional, quase sempre à base de saias longas e coloridas, xale e muitas miçangas dependuradas no pescoço.

Antes de comunicar sua saída do PT, Marina havia telefonado para o presidente do partido, deputado Ricardo Berzoini (SP), além de enviar a ele uma carta na qual comunicou seus motivos. “É uma decisão que exigiu de mim coragem para sair daquela que foi até agora a minha casa política e pela qual tenho tanto respeito, mas estou certa de que o faço numa inflexão necessária à coerência com o que acredito ser necesário alcançar como novo patamar de conquistas para os brasileiros e para a humanidade”, afirmou Marina.

Em seguida, ela lembrou os cinco anos, cinco meses e catorze dias em que foi ministra do Meio Ambiente. Falou de suas lutas pela redução do desmatamento na Amazônia, o que considera a estruturação e fortalecimento do sistema de licenciamento ambiental e a criação do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade. Mas concluiu que não teve o apoio necessário no governo para tocar adiante a política ambiental. “Entendo que faltaram condições políticas para avançar no campo da visão estratégica, ou seja, de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto de políticas públicas.”

Marina afirmou que o PV lhe ofereceu condições de levantar a bandeira do desenvolvimento sustentável. Mas acha que outros partidos e a sociedade têm de se engajar na mesma luta. “O PV está se dispondo a fazer esse movimento. Está sendo pioneiro, mas não deve ter a pretensão de ser o único. Espero que com esse gesto ela possa contribuir para que os demais também o façam.”

Até os 16 anos Marina viveu no Seringal Bagaço, 11 horas de barco até Rio Branco (AC). Ela lembrou que, ainda analfabeta, mudou-se para a Capital, para cuidar de uma hepatite. Também quis estudar, porque seu grande desejo era tornar-se freira. Acabou casando-se e ficou longe da vida monástica. Por 37 anos permaneceu na Igreja Católica. Depois, converteu-se ao protestantismo. Mas até hoje mantém uma grande amizade com o bispo de Porto Velho, dom Moacyr Grechi, o qual considera seu segundo pai.

Mandato de Marina

O presidente nacional do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), disse ontem que não recorrerá à Justiça Eleitoral para que o partido fique com o mandato da senadora Marina Silva (sem partido-AC).

Berzoini lembrou que o PT defende a fidelidade partidária, como está previsto na resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Porém, no caso de Marina Silva, houve interlocução “positiva e respeitosa” entre o partido e a senadora.

“Houve uma interlocução positiva e respeitosa com a Marina, fazendo um debate sobre as razões da desfiliação. Não seria correto depois de tanto diálogo pedir o mandato dela”, afirmou.

O deputado ressaltou que essa é a posição dele como militante do partido, e que a decisão final será do Diretório Nacional. Porém, ele não acredita que algum dirigente do PT defenderá uma ação contra Marina.

A resolução do TSE sobre fidelidade partidária, fixada em 2007, estabeleceu a fidelidade partidária ao punir com a perda do mandato os parlamentares que trocarem de partido.

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