O cinema criou o charme do cigarro e arrastou gerações ao vício. O ato de fumar fazia ilação com a atitude de gente bem sucedida. Esta era a idéia subjacente, com a qual a indústria tabaqueira minava a publicidade cheia de gente bonita. Quando a beleza das moças de seios arfantes cansou, entrou em cena a cavalaria da Marlboro. Liberdade, vida ao ar livre, a aventura de cavalgar solto pelos pastos da vida. Como dizia um amigo, a publicidade maciça da Marlboro serviu não só ao cigarro como também ao cavalo quarto de milha, raça hegemônica em todo o mundo.
Nos filmes de Hollywood, mocinhos e mocinhas espiralavam fumaça e faziam dengue com o cigarro pendurado no beiço. Humphrey Bogart conseguia a proeza de dialogar com Ingrid Bergman sem deixar cair o cilindro do canto da boca. Rita Hayworth passou para a história do cinema, em 1946, num filme antológico de Charles Vidor. Ramos Calhelha, o narrador dos thrillers, com sua voz inconfundível anunciava: “Nunca houve uma mulher igual a Gilda. Abalando os corações dos homens...” Rita cantava, dançava e fumava. Naquela época vigorava o calvinista Código Morgan na indústria cinematográfica de Hollywood. Streep-tease nem existia. Os censores permitiram a Gilda se despir das luvas. Os braços nus bastaram. O tomaraquecaia de cetim negro provocou frisson nas platéias do mundo inteiro. Os freudianos interpretavam o cigarro que ela fumava o tempo todo, como um símbolo fálico. Uauuu. Toda essas encenações sustentadas pelo cartel da American Tobacco arrastaram à morte prematura milhões de pessoas acometidas de câncer e outras doenças. Os governos viam na indústria da fumaça uma fonte de receita inesgotável. O jorro de dinheiro dos impostos ajudava na recuperação do pós-guerra e a sustentar a burocracia estatal.
Até quase o final do século 20, quem não fumava era tido como “careta”, ou fora do seu tempo. A lei que vigorava era: “os incomodados que se mudem”. Somente agora se reconhece que o direito coletivo prevalece sobre o individual e quem tem que ir lá fora é o viciado. Hoje, 38 milhões de brasileiros ainda fumam. No mundo todo os fumantes somam 1 bilhão e 200 milhões. A Lei Antifumo do governador José Serra ganha o efeito dominó e repete-se em vários outros estados do Brasil, com punições ainda maiores para os recalcitrantes. Agora que a lei começa a pegar, a Advocacia Geral da União descobre que a fumaça que evola dos cigarros e nos faz tabagistas passivos é “federal”. Portanto, os estados não deveriam legislar sobre o assunto. Há outros argumentos idiotas. Um deles defende que a lei não pode disciplinar locais para o viciado dar as suas baforadas sem prejudicar o próximo, porque o cigarro é um produto lícito. Camisinha também é um produto legal, mas não se pode dela fazer uso para sexo em qualquer lugar. Beber uma latinha de cerveja e dirigir também é proibido. Produtos lícitos não podem ser utilizados em quaisquer circunstâncias.
Outro argumento claudicante fala sobre a transformação da sociedade num “bando de delatores nazistas”. Toda vez que um fumante for visto dando suas baforadas em lugar não permitido, alguém vai chamar a polícia. Os guardas não vêm nem para pegar ladrão, imagine se vão ter condições de correr atrás de tabagistas. A única reclamação realmente séria é a de que a lei pune o estabelecimento e não pune o fumante. O dono do bar pode ser multado porque o cliente decidiu mandar o Serra às favas e satisfazer o vício ali mesmo, como no tempo dos machões do cinema.
No Canadá uma garçonete morreu de câncer no pulmão sem nunca ter fumado. Antes de entrar em coma viajou por todo o país fazendo campanha contra o fumo e alertando para o perigo do tabagismo passivo. A partir daí o movimento ganhou força no mundo. As estatísticas denunciam sete óbitos por dia de fumantes passivos que contraíram doenças causadas pelas 4.500 substâncias tóxicas que o cigarro contém. Por isto mesmo, 80 mil garçons e maitres comemoraram no Rio a lei antifumo do governador Sérgio Cabral.
Quem sabe um dia, possa ser extirpado no Brasil o velho hábito dos tupinambás, observado pela Missão Francesa de 1556. Os índios ficavam quietinhos, de cócoras, extraindo fumaça dos canudos enrolados de folhas de largas - relatava. Os franceses foram experimentar, gostaram das baforadas e das sensações calmantes da nicotina. Levaram o vício para o Velho Mundo.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC