Condições precárias de trabalho, jornada excessiva, má formação nas faculdades e falta de tempo para atualizações. De acordo com a Associação Paulista de Medicina (APM), esses são os principais desafios enfrentados pela categoria nos últimos anos. São situações extremas que acabam colocando a relação médico-paciente em xeque e, muitas vezes, são aproveitadas pela “indústria da indenização”. Para coibir o aumento de ações judiciais envolvendo o exercício da medicina, a APM tem investido em fóruns, como o realizado anteontem em Bauru.
O presidente da regional de Bauru da APM, Eduardo Tolentino, avalia que o maior desafio da categoria são as condições precárias de trabalho. “Muitos pacientes buscam um atendimento de urgência e são atendidos por um médico que não estão acostumados. É uma situação onde as pessoas estão mais sensíveis e pode gerar desentendimentos na qual o exercício da profissão não é inadequado, mas a sensibilidade é maior”, avalia. Além dessa situação, ele também destaca o aumento das ações judiciais por indenização. “Existe uma indústria do erro médico baseada no interesse econômico”, frisa.
“O médico atua em múltiplos empregos, com jornadas sobrecarregadas. A sociedade exige muito do prestador de serviço da área de saúde. A cobrança é maior para os médicos”, destaca Jorge Carlos machado Curi, presidente da APM.
Tomás Patrício Smith-Howard, diretor de defesa profissional da entidade, avalia que é equivocada a idéia de que os médicos são profissionais financeiramente bem remunerados. “E essa idéia levanta interesse de profissionais que não são éticos, de pessoas estimuladas a buscar um processo sem base”, diz.
Alterações na legislação de indenizações aumentam as dúvidas dos médicos. “O processo por dano moral é uma novidade para o médico”, diz Tolentino. “E na área da medicina, há uma amplitude de situações que geram problemas. Existem áreas arriscadas, que os médicos podem passar a evitar para não se tornarem alvo de processos”, observa.
Smith-Howard avalia que esse risco é causado por um conjunto de fatores, iniciando pela má remuneração da categoria. “A saúde é um bem essencial e o médico deveria ser reconhecido, ter um plano de carreira, horários decentes”, frisa. Ele também critica a infra-estrutura. “São pronto-socorros sem a quantidade mínima de médicos, onde poucos atendem muitos. A sobrecarga de trabalho está em todos os lugares”, diz.
Para ele, as más condições de trabalho são preocupantes. “A queda na qualidade de trabalho gera riscos enormes que levariam a indícios de má prática da profissão”, pondera o diretor da APM. Numa situação crítica, o médico é o alvo, frisa Smith-Howard. “Num pronto-socorro lotado, onde o atendimento demora e a pessoa se sente má atendida, o médico é culpado pela população. Ele é o pára-raios da situação”, avalia.
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Prevenção
O diretor de defesa profissional da APM, Tomás Patrício Smith-Howard, alerta para a má formação profissional do médico. “Há facilitação para abrir faculdades sem hospitais escolas e vagas para residência médica. Esses cursos são abertos com objetivos puramente financeiros”, critica Smith-Howard. “São profissionais mal treinados que são levados ao erro”, diz.
Para evitar a proliferação de processos judiciais quanto ao exercício da medicina, a APM investe em ações educativas, como o “Fórum de Responsabilidade Civil, Ética e Penal do Médico”, realizado anteontem em Bauru. Ontem, o evento foi encerrado com solenidade festiva em comemoração aso 60 anos da APM em Bauru. “É necessário investir em educação para o médico e também para a população, sobre o que esperar de um atendimento de qualidade e também para melhorar a relação médico-paciente”, destaca Jorge Curi.
“Queremos trazer a prevenção para a classe médica. Para os colegas estarem cautelosos em relação ao atendimento”, frisa Eduardo Tolentino. “É uma oportunidade de discutir orientações e cuidados na prática diária, aspectos que devem ser mantidos. Além disso, incentivo aos médicos que denunciem situações precárias e também a má remuneração para que não venham a ser responsabilizados”, ressalta.
A APM disponibiliza assessoria jurídica especializada para defender os médicos em todas as instâncias, quando denunciado. “É importante, antes de qualquer manifestação, que o médico procure sua entidade”, frisa Smith-Howard.