Festival de mentiras. Patuscadas de circo mambembe. Foi o que assistimos neste mês de agosto-desgosto no Senado Federal e adjacências do Poder. O desempenho do Congresso talvez tenha superado os 21 anos da ditadura, período em que a farsa, pelo menos era explícita. Rememorando sem preocupação cronológica, tivemos o bate-boca da ministra candidata Dilma Roussef com a ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira. Dilma sustenta que com ela não se encontrou e, portanto, não poderia ter feito recomendação para que a Receita apressasse a auditoria fiscal sobre o filho de Sarney. Lina, por sua vez, alegou ter perdido a agenda na mudança. Nela estaria marcada a reunião, cuja data não se lembra. A saída seria checar os registros do sistema de Segurança do Palácio do Planalto. O governo informa que os vídeos de entrada e saída de carros são apagados no prazo de 30 dias. O cadastro de credenciamentos também não registra a passagem de Lina pela Casa Civil. Se lá tivesse ido teria sido liberada desse incômodo por ser uma “alta autoridade”. Pelo menos esta foi a explicação dada pelo líder do governo Romero Jucá (PMDB-RR). Em resumo: o sistema de segurança do Palácio do Planalto custou R$ 4 milhões e não serve para nada.
A blindagem imposta por Lula a José Sarney provocou um racha no PT e pôs em perigo a candidatura Dilma Roussef, já fisicamente baleada pelo tratamento de um câncer linfático. O senador Aloízio Mercadante saiu todo arranhado ao anunciar a renúncia irrevogável da liderança da bancada para depois voltar atrás, a pedido do presidente. A comédia continuou com o senador petista Eduardo Suplicy mostrando o cartão vermelho a Sarney. Vermelho-apoplético ficou ao tentar responder o aparte do seu colega Heráclito Fortes, recheado de uma lógica incontestável. “Por que V. Exª não deu cartão vermelho ao presidente Lula, que invadiu o campo e provocou toda esta confusão?”
Suplicy faz uma enquête entre taxistas e no seu site, para saber o que as pessoas acharam do seu gesto. Ajudou a ampliar os escombros do seu partido, mas ficou contente com as primeiras páginas dos jornais e a popularidade alcançada. Inocentado pelo Supremo Tribunal Federal da acusação de rompimento do sigilo bancário de seu caseiro, o ex-ministro da Fazenda volta ao cenário político como possível candidato ao governo de São Paulo. Suplicy quer fazer uma prévia para ver quem tem mais ibope. A imprensa estrangeira vai além. Assegura que o Palocci vai substituir Dilma Roussef no páreo à Presidência da República.
O homem da República de Ribeirão Preto foi salvo por falta de provas no STF, pelo magro placar de 5 a 4. Mas o que vale é bola na rede. Sobrou para o ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, o único que falou a verdade. Ordenou a retirada dos extratos bancários de Francenildo, o caseiro, e o repassou para o então ministro da Fazenda. Francenildo foi condenado há muito tempo. Com o estrépito do episódio nunca mais arrumou emprego fixo e vive de bicos. Nem por isto se faz de vítima. Emprestou terno, camisa e gravata para poder assistir ao Supremo espetáculo. Entrou calado e saiu mudo. Como disse o ministro Márcio Mello, repetindo o velho clichê, “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”.
Diante da enorme pizza os sociólogos saudosistas reclamam a falta de mobilização popular, pródiga num passado não muito distante. Houve época em que a população saía pelas ruas em protesto. Talvez a teoria da motivação explique esse amorfismo. Quem estuda a linguagem da persuasão conhece a “pirâmide de Maslow”, desenvolvida por um psicólogo norte-americano nos anos 1960. O primeiro degrau da pirâmide é constituído pelas necessidades de sobrevivência, como comer. Depois vem a necessidade de segurança – no trabalho, por exemplo. No terceiro patamar está a necessidade social - desejo de pertencer a um determinado grupo. No quarto degrau é que vem a autoestima e, por último, a autorrealização.
Segundo Abraham Maslow (1908-1970), enquanto não satisfeito um grau de necessidade não há progressão. O jornalista Fernando Martins observa que “a falta de ética no governo e no parlamento ocorre, em grande medida, porque os políticos sabem que uma parcela significativa do povo brasileiro está mais preocupada em atender suas necessidades básicas antes de pensar em moralidade pública.” Em resumo, para o povo, o herói, mesmo sem caráter, é aquele que lhe garante comida na mesa. Corrupção? “Tô nem aí”.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC