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Entrevista da semana: Benedito Roberto Meira

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Um policial envolvido com a cidade

Difícil em Bauru quem não conheça o tenente-coronel Benedito Roberto Meira. Atualmente comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPMI), ele chegou à cidade em 1985, rescém-saído da Academia Barro Branco, ainda como tenente. Envolvido com a população, não se furtando a discutir segurança pública nos mais diversos setores da sociedade e a ouvir sugestões e críticas, ele foi promovido a capitão, depois a major e foi transferido para o Policiamento Rodoviário.

Mas três anos depois, elevado a tenente-coronel, Meira retornou ao comando do policiamento não só de Bauru, mas como de mais 18 municípios da região, que formam a área do 4.º Batalhão. E ele quer mais. Tem como meta ser coronel da PM, posto mais alto da corporação e o próximo após tenente-coronel.

Nas horas de folga, Meira gosta é de jogar tênis, um hobby que lhe dá preparo físico necessário tanto para a profissão quanto para uma boa saúde. E chega a participar de campeonatos, inclusive já ganhou alguns prêmios. Homem que preza o convívio familiar, inclusive almoçar em casa todos os dias ao lado da mulher e filhos, ele revela que não se aventura em nada na cozinha.

“Nem o meu churrasco presta”, diz, brincando. Há 24 anos em Bauru, apesar de não ser bauruense, Meira considera a cidade seu lar, pois é onde se realizou profissionalmente, formou família e cultivou amizades. Além de segurança pública, ele fala da trajetória militar e suas histórias e da vida familiar. Leia a seguir.

Jornal da Cidade - Qual era seu sonho profissional quando menino?

Tenente-coronel Benedito Roberto Meira - Meu pai era farmacêutico prático, ou seja, não tinha formação acadêmica mas adquiriu conhecimentos trabalhando no ramo desde criança. Quando ele comprou sua primeira farmácia eu ainda era criança e já comecei a trabalhar com ele. Nessa época, eu queria muito ser médico e sonhava com a medicina. Meus pais me incentivavam, mas não tinham condições financeiras de pagar a faculdade e passar em vestibular de universidade pública era muito difícil, tanto é que tentei e não passei.

JC - E a carreira militar, como entrou nesta área?

Meira - Não passei no vestibular para medicina e um tio meu, policial militar, sugeriu que eu prestasse o concurso da Academia de Polícia Militar do Barro Branco. Fiquei interessado e meu tio me explicou como era o vestibular, já concorrido na época. Fiz a prova e não passei na primeira vez. Porém, não desisti. Fui para São Paulo fazer um curso preparatório por um ano, mantido por meu pai, e ingressei na Barro Branco em 1981, com 18 anos de idade.

JC - Imagino que tem muitas histórias dessa época...

Meira - Nossa! A minha turma completou 25 anos de formada e nos reunimos recentemente para comemorar. Foi uma festa muito interessante com os familiares, filhos, etc. Todo ano nos reunimos em uma viagem programada. Não há sequer uma oportunidade em que não lembramos dos fatos pitorescos da época de academia. As aulas de equitação, por exemplo, não tem como esquecê-las. Eu detestava aquelas aulas e tive a felicidade de levar apenas um tombo do cavalo e foi exatamente no último dia de aula do curso. Sempre tinha alguém que caía do cavalo, levava um coice ou uma mordida. Enfim, eram aulas em que sempre esperávamos cenas que seriam motivos de gozação. Tínhamos aulas no meio da mata também porque, naquela época, havia aulas de movimentação em matas e, ao final do curso de cada ano, fazíamos uma jornada em que participávamos da montagem de barracas, deslocamento em água, fazíamos rapel... Enfim, era uma coisa mais voltada contra guerrilha porque, na época da ditadura militar, a PM foi utilizada para combate a guerrilheiros e revolucionários. Hoje já não há mais esse tipo de instrução porque a formação é voltada especificamente para a atividade de polícia.

JC - A instituição mudou muito ao longo desses anos?

Meira - Sim, ela se adaptou à realidade do País. Hoje os jovens têm formação voltada para atividades de polícia comunitária, gestão pela qualidade, direitos humanos. Eu comparo a formação da minha época com a de hoje e vejo que mudou para melhor. É uma formação voltada aos interesses do cidadão, para uma aproximação com a comunidade e a manutenção dos direitos humanos, que é algo consolidado dentro da nossa instituição. Hoje é fundamental a aproximação da Polícia Militar com a população.

JC - Qual é o grande desafio da PM hoje?

Meira - É encontrar e criar mecanismos de aproximação com a comunidade e uma dessas formas é a transparência com os veículos de comunicação, além de levarmos em consideração as reivindicações da população. Isso é polícia comunitária.

JC - Qual é a sua trajetória militar?

Meira - Depois que saí da Barro Branco eu fui trabalhar em Botucatu como aspirante, retornei à capital e depois recebi um convite para vir para Bauru. Aceitei e cheguei aqui em setembro de 1985, onde permaneço até hoje. O único momento em que me desvinculei das atividades do 4.º BPMI foi quando fui promovido a major e fui para o Policiamento Rodoviário. Cerca de três anos depois fui promovido a tenete-coronel e hoje sou o comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4ºBPMI), com sede em Bauru e responsável por mais 18 municípios.

JC - Qual era seu sonho quando entrou na carreira militar?

Meira - O sonho de qualquer jovem oficial é ser o comandante da unidade em que ele atua e ser o comandante do meu batalhão foi um sonho concretizado, já que trabalhei aqui praticamente a minha vida toda. Hoje estou tentando colocar em prática algumas medidas e iniciativas que eu tinha pretensão . Você vai me perguntar se ainda tenho sonhos mesmo com 28 anos de serviço e 47 anos de idade?

JC - Imagino que tenha sim...

Meira - Eu me propus a ser coronel da PM, que é o último posto da corporação. Estou no penúltimo, sou tenente-coronel. Tenho vontade de ser coronel? Claro que sim! Mas isso não depende mais de mim e sim do comando da minha instituição que irá definir se eu mereço ou não. Me habilitei para isso e acredito que fui uma pessoa extremamente comprometida com minha carreira ao longo da profissão e pretendo cuidar dos interesses do meu município.

JC - O senhor considera Bauru a sua cidade?

Meira - Sim. Não sou natural da cidade, mas a adotei como minha porque é aqui que tenho grandes amigos, conheci minha mulher, meus filhos nasceram aqui... Enfim, minha vida toda é aqui.

JC - A cidade também o adotou...

Meira - Também. Eu percebo que as pessoas têm carinho por mim e procuro passar uma postura séria. Estou sempre preocupado em resolver os problemas locais.

JC - Quais os maiores problemas da segurança pública de Bauru?

Meira - Os bolsões de pobreza, por exemplo. Precisamos da prevenção primária, como iluminação pública e pavimentação asfáltica, que facilita o acesso das viaturas e também o desfavelamento e redução da desigualdade social. Olha, aprecio muito o trabalho do prefeito Rodrigo Agostinho porque ele participa de reuniões dos conselhos comunitários de segurança, desde a época em que era vereador, ou seja, sempre mostrou interesse pelos problemas da cidade. Porém, uma coisa que gosto de falar é que o crime não está relacionado à pobreza (por mais que ela abra caminhos para tal) e sim à impunidade. Veja Brasília, por exemplo.

JC - O que é preciso para combater a criminalidade?

Meira - Precisamos de uma ação coletiva: o trabalho da Polícia Militar, da Polícia Civil, da Prefeitura Municipal, do Poder Judiciário, do Ministério Público, dos estabelecimentos prisionais e da sociedade como um todo.

JC - O que o tenente-coronel Benedito Roberto Meira faz quando não está fardado?

Meira - Acompanho programas de TV. Gosto muito de ver jogos de futebol e de tênis, embora meus filhos detestem porque demoram muito e acabo ocupando a televisão. Tênis é um assunto que me interessa muito e foi uma forma que eu encontrei para evitar o sedentarismo. Há algum tempo eu estava acima do meu peso e não praticava esporte algum. Foi quando decidi que precisava mudar meus hábitos e descobri no tênis o esporte ideal para mim. Pratico há pouco mais de 13 anos. Disputo torneios locais e já ganhei alguns prêmios, mas nada profissional. Meu objetivo é unir algo que gosto com uma prática esportiva.

JC - Já viajou muito?

Meira - Eu e minha família programamos uma viagem boa ano sim, outro não. Conheço alguns Estados do Brasil como o Ceará, Bahia, Santa Catarina, Rio de Janeiro, entre outros. E já fui para Miami, nos Estados Unidos da América, pela PM.

JC - Como é seu convívio familiar?

Meira - É muito bom. Adoro ficar em casa com a família e passear com eles. Faço questão de almoçar com a esposa e os filhos diariamente.

JC - Cozinha também?

Meira - Nada! Nem me arrisco. Meus filhos ficam bravos quando eu invento de fazer um churrasco porque sai uma porcaria. Eu não sei cozinhar e não gosto.

JC - Como foi a sua educação?

Meira - Foi rígida, mas aprendi muita coisa. Meus pais me ensinaram que um homem deve estar junto da sua família na hora das refeições, pois esse é um ótimo momento para interagir e saber o que está acontecendo com eles.

JC - É um pai severo?

Meira - Acredito que não. Tento passar para meus filhos o que meus pais me ensinaram e sempre com a mentalidade de que eles têm que viver dentro da realidade que eu tenho, do que consegui financeiramente. Meu filho está em idade de vestibular e quer fazer medicina. Eu não tenho condições de pagar a mensalidade de uma faculdade particular, então, o único jeito é ele estudar para passar em uma pública. E está fazendo isso, o que me deixa muito feliz. Ensino a eles que nunca devemos dar um passo maior que as nossas pernas. Meu relacionamento com eles é aberto e muito bom.

JC - Deixe um recado para os pais como policial e como pai de família?

Meira - Gosto muito de dizer que a educação que passo é o Eca (Estatuto da Criança e Adolescente): exemplo, companhia (devemos ser vigilantes com eles) e ambiente (o meio influencia na educação e na formação). Acho que o grande desafio, hoje, é evitar que os filhos tenham acesso às drogas e digo isso pela experiência da minha profissão. Os pais têm autoridade e o dever de falar não, mas isso precisa ser feito de forma explicativa. Dizer “não” deve vir acompanho do porquê. Acredito que o exemplo que vem dos pais é o alicerce da educação dos filhos e está acima de tudo. Uma casa trinca se o alicerce não for bem feito e os filhos vão para o caminho errado se você não ensinar o certo para eles. Essa é a verdade!

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