Internacional

Japoneses vão às urnas hoje sob a sombra de tradições e apatia


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Tóquio - A eleição parlamentar de hoje no Japão deve marcar a maior derrota da história do Partido Liberal Democrata (PLD), no poder quase ininterruptamente desde 1955. As pesquisas indicam que o opositor Partido Democrático do Japão (PDJ) pode ficar com 67% da Câmara dos Deputados, e Yukio Hatoyama, 62 anos, será o novo primeiro-ministro, sucedendo o impopular Taro Aso, 68 anos, há dez meses no cargo.

Mas diversos analistas ouvidos pela reportagem dizem que a mudança de partido ainda é pouco para a renovação da política e da economia japonesas.

Tanto Hatoyama quanto Aso são da quarta geração de políticos em suas famílias. Nos anos 50, o avô de Hatoyama foi rival do avô de Aso, ambos no PLD.

Na versão nipônica do coronelismo, distritos eleitorais são passados de bisavós para bisnetos, sem pular uma única geração. Os últimos quatro primeiros-ministros do país seguem a tradição hereditária. Aso, Fukuda e Shinzo Abe foram filhos ou netos de primeiros-ministros. O popular ex-premiê Junichiro Koizumi, aquele de penteado roqueiro, colocou o filho de 28 anos como candidato em seu distrito na eleição.

Na economia, o peso da tradição não é tão diferente. A partir do pós-guerra, o importante era dar todo o poder a quem produzisse e protegê-lo da competição externa -desde que empregasse o máximo de gente possível. O emprego garantiria o bem estar social. Caberia ao trabalhador se virar, poupando o máximo possível.

Essas políticas funcionaram enquanto havia o crescimento acelerado provocado pela reconstrução do país. A chamada “fortaleza Japão’’ impede a entrada de concorrentes estrangeiros em várias áreas, dá regalias aos empregados mais antigos, mesmo que já não produzam nada, e relega os contratos temporários e falta de benefícios aos mais jovens.

A chegada de imigrantes, os quais poderiam energizar o país e, pelo menos, aumentar a natalidade, sofre com ainda mais barreiras. “A recessão global expôs as fraquezas estruturais do Japão, da dependência excessiva das exportações e do consumo doméstico anêmico até a ineficiência e as barreiras à competição’’, diz a economista Mikka Pineda, analista-chefe para a Ásia da consultoria RGE Monitor.

O Japão ainda é a segunda maior economia do mundo (mas deve ser ultrapassado pela China no ano que vem) e tem uma renda per capita de US$ 38 mil, 4,6 vezes maior que a brasileira. Mas toda essa riqueza está ameaçada.

O número de trabalhadores com mais de 65 anos aumentou 19% na última década, enquanto os que estão entre 25 e 34 anos encolheram 9%. Em cinco anos, um quarto da população japonesa já terá idade superior a 60 anos.

Na eleição de 2005, 83% dos eleitores com mais de 60 anos compareceram às urnas, enquanto apenas 46% dos com menos de 30 anos votaram. Quem tem 25 anos de idade só se lembra de uma economia estagnada.

Segundo historiadores, a falta de entusiasmo é antiga. Graças a um regime que sobreviveu com um partido único por décadas, com políticos hereditários, ao que se soma uma Constituição imposta de fora, pelos vitoriosos na Segunda Guerra.

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