Tóquio - A oposição japonesa conquistou ontem quase dois terços da Câmara dos Deputados, na maior reviravolta eleitoral do país desde a Segunda Guerra Mundial.
A apuração não havia terminado até 17h30, mas meios de comunicação japoneses previam que o centrista Partido Democrata do Japão (PDJ) ocupará 308 assentos do Parlamento (de um total de 480), quase triplicando os 112 deputados que tinha na atual composição. Seu líder, Yukio Hatoyama, 62 anos, se tornará premiê em duas semanas.
O conservador Partido Liberal Democrata (PLD), que governou o país por 54 dos últimos 55 anos (a exceção foi um breve período em 1994), perdeu, por sua vez, quase dois terços das cadeiras que tinha no Parlamento, recuando de 303 para 119.
“O descontentamento do povo é maior do que o imaginado’’, afirmou Hatoyama ontem à noite em coletiva. “Esta vitória está a serviço do povo e dos mais pobres.’’
Em sua campanha, ele lançou um manifesto prometendo reforçar o estado de bem-estar social no Japão e acusando o neoliberalismo dos anos do ex-premiê Junichiro Koizumi (2001-2006) pela atual crise que o país vive.
Os democratas também apresentaram diversos candidatos jovens, em contraste com os sexagenários e septuagenários que dominam a política do PLD. Em vários cartazes, aparecia escrito “change’’ (mudança), em inglês mesmo, uma alusão ao marketing da campanha de Barack Obama nos EUA.
Apesar do discurso reformista, o engenheiro Hatoyama, com pós-graduação em Stanford, é do establisment político nipônico. Seu avô foi primeiro-ministro entre 1954 e 1956 e seu pai foi chanceler, ambos pelo PLD. Seu irmão foi até há pouco ministro no gabinete do premiê Taro Aso, derrotado na eleição de ontem.
O PDJ foi criado em 1998, unindo dissidentes do PDL, socialistas e comunistas. Hatoyama só se tornou líder do partido em maio deste ano, quando seu antecessor, Ichiro Ozawa, 67, renunciou após um escândalo pelo financiamento irregular de campanhas.
Para muitos analistas, Ozawa ainda é o cabeça do partido e mentor do próximo premiê. Tanto Ozawa quanto Hatoyama estão na ala mais conservadora do PDJ.
Crise e deficit
A crise econômica é considerada a maior culpada pela derrocada governista, principalmente por conta da queda das exportações para os mercados americano e europeu. Quatro dos últimos cinco trimestres tiveram queda no PIB e o desemprego é um dos mais altos em 30 anos.
Vários pacotes de estímulo lançados pelo premiê Taro Aso em seus dez meses no poder (o país teve três premiês nos últimos três anos) não conseguiram mudar a falta de confiança do empresariado e dos consumidores japoneses.
Apesar de várias promessas que exigem um aumento considerável dos gastos do governo, Hatoyama prometeu não aumentar impostos. O deficit público já equivale a mais de 180% do PIB japonês.