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Apelo sólido num contexto líquido

Luiz Antonio Lopes Ricci
| Tempo de leitura: 4 min

Para o filósofo Lyotard, a pós-modernidade é mais uma atmosfera que um tempo histórico. Essa atmosfera tem como característica certa melancolia e desilusão em relação às promessas feitas pela modernidade. A palavra pós-modernidade não designa eventos históricos, mas sim uma nova sensibilidade, um novo conjunto de valores, um novo modo de entender o tempo e a história, em suma, uma condição pós-moderna. Designa antes de tudo um novo modo de viver, um estilo de comportamento, valoriza a subjetividade livre e criativa. Desse modo, o homem pós-moderno é mais propositivo e menos combativo ou contestador. Prefere estruturas mais leves que preservem o espaço de liberdade e criatividade e favoreçam resultados positivos concretos obtidos preferentemente em curto prazo.

A sensibilidade pós-moderna é denominada por Z. Bauman de líquida, ou seja, os vínculos e empenhos são dissolvidos ou facilmente esquecidos. Um período de ambivalência e instabilidade, marcado pela falta de fundamentos e solidez. Constata-se que ser líquida é o caráter principal da sociedade ocidental contemporânea. Para Bauman, “os fluídos são assim chamados porque não conseguem manter por longo tempo uma forma, continuam a mudar a forma sob a influência de qualquer mínima força”. Nesse sentido, a solidez, tradicional atributo da modernidade, parece experimentar grave crise. Assim, na sociedade líquida de Bauman, sem forma e identidade, as propostas e respostas que exigem compromisso, constância e renúncias não são bem-vindas.

Essa realidade sócio-cultural incide diretamente na Igreja e na vida dos cristãos. A Igreja, continuadora da missão de Cristo no mundo, não está imune ao perigo de se tornar líquida. Se ela não for atenta aos sinais dos tempos e questões que afligem ao homem concreto, situado numa realidade concreta (lugar social) e que espera respostas a questões concretas, se desconsiderar a opção pelos pobres, deixando de tê-los como princípio inspirador, se não se posicionar ao lado das vítimas e dos fracos com coragem profética e “parresia” (vigor destemido), corre o risco de se tornar uma Igreja líquida e “morna” (cf. Ap 3,15-16), sem opções claras e convicções: “na busca de respostas, não esquecer as opções fundamentais”, alerta a Igreja do Brasil.

Quando se dilui a mensagem sólida e libertadora de Cristo, dilui-se também, de certo modo, a Igreja de Cristo. Portanto, toda ação eclesial deve, necessariamente, coincidir com a sólida proposta apresentada pelo Redentor do Mundo. Caso contrário, não será possível a vida moral cristã e a conseqüente “obrigação de dar frutos no amor para a vida do mundo” (OT, 16). Uma Igreja líquida, assim como um homem líquido vem ao encontro dos interesses da “sólida” estrutura de pecado. O líquido não impõe limite ou resistência ao sólido. Solidez se combate com solidez, ou seja, com a proposta e critérios libertadores de Cristo. O homem, desde a Criação, não é líquido. É Adão, ou seja, “terra”, vinculado a um horizonte concreto e sólido.

Da opção fundamental por Cristo derivam as opções preferenciais dos cristãos pelas grandes causas do Reino, especialmente a evangélica opção pelos pobres. A Igreja, plasmada pelo Espírito Santo, continua a obra da Criação-Salvação quando colabora para devolver ou conservar, no homem, aquela “forma original” de “imagem e semelhança de Deus”, evitando a diluição da vida. A Igreja, acolhedora e atenta, como referência sólida e jamais moldável (pelas tendências líquidas e neoliberais excludentes), é uma espécie de recipiente re-criativo que acolhe o líquido e contribui para a sua re-solidificação.

Assim que a missão eclesial de evangelizar e purificar dos “males” a realidade sócio-cultural constitui hoje um grande desafio, principalmente quando se toma consciência que, na raiz da “cultura de morte”, está o “mal moral”, uma questão que acompanha a história da humanidade. Jesus, após escolher os Doze, os enviou para exorcizar e curar: “os Doze personificam a Igreja de todos os tempos. Porque o mundo é dominado pelas potências do mal, esse anúncio é, ao mesmo tempo, uma luta contra essas potências” (Bento XVI, Jesus de Nazaré).

Tudo isso implica defender, conservar e promover a vida humana, para que ela seja digna de homem. Trata-se de colocar “a vida em primeiro lugar” e assumir, simultaneamente, a responsabilidade moral pela vida que nos foi confiada pelo Criador e redimida pelo Salvador: “o autor da vida”.

O autor, Luiz Antonio Lopes Ricci, é doutor em teologia moral pela Universidade Lateranense - Academia Afonsiana, de Roma, sacerdote, vigário geral da Diocese de Bauru e professor de teologia moral na Faculdade João Paulo II, em Marília

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