No dia do encerramento da Semana da Diversidade e da “Parada” na avenida Nações Unidas, a Entrevista da Semana é com Ademir Elias, um militante contra qualquer forma de racismo e que luta pelos direitos humanos e pelo respeito às diferenças. Jornalista, atualmente assessor de imprensa do Gabinete do prefeito Rodrigo Agostinho, é também o presidente do Conselho da Comunidade Negra, entidade que tem como objetivo o incentivo à criação de políticas públicas para que as minorias possam ter seus direitos garantidos.
Menino criado em família simples, Ademir teve uma infância e juventude de rapaz batalhador. Ajudou os pais trabalhando na lavoura, foi auxiliar de padeiro, balconista, operário de fábrica e bancário. Como em uma escada, foi subindo degrau por degrau até ter sucesso e notoriedade no cenário da mídia regional.
Voz bastante conhecida por seus 23 anos de trabalho em rádios, ele também atuou como repórter televisivo, realizando um sonho e sendo um dos primeiros negros a conquistar seu espaço nas telas da TV regional. Nesta entrevista ele fala sobre as aventuras e os perigos que passou quando trabalhou em Ponta Porã (Mato Grosso do Sul), na fronteira com o Paraguai. “Cheguei a ser ameaçado de morte por três vezes”, lembra-se.
Homem maduro e cheio de experiências, hoje, um dos principais propósitos da vida de Ademir Elias é seu engajamento com a luta contra os preconceitos, de modo especial, sofrido pela comunidade negra. Acompanhe abaixo a entrevista.
JC – Como foi sua infância e juventude?
Ademir – Vim de uma família humilde. Nasci na zona rural e cheguei na cidade aos 13 anos. Ajudei meus pais na lavoura, fui auxiliar de padeiro, balconista, operário de fábrica e bancário. Depois é que fiz um curso de radialismo. Já com uma certa trajetória no rádio, fui para a TV. Cursei faculdade de jornalismo na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” e cheguei a fazer um ano e meio de mestrado, mas parei por falta de tempo e uma série de outros fatores.
Jornal da Cidade – Quais são as suas principais atividades profissionais hoje?
Ademir Elias – Sou assessor de imprensa do Gabinete do prefeito de Bauru, desde janeiro, e faço reportagens e futebol amador para rádios da cidade.
JC – Quais foram os seus trabalhos como jornalista?
Ademir – Tenho uma trajetória de 23 anos no rádio e 16 anos em televisão. Meu trabalho mais marcante no rádio foi na 96 FM, onde trabalhei durante sete anos e participei da equipe que criou o projeto “VivaCidade”, programa que está no ar desde 1987. Também trabalhei em outras emissoras de rádio da cidade. Já na televisão, comecei no final de 1992. O jornalista Luiz Malavolta me convidou para trabalhar com ele e me ensinou a fazer televisão. A TV Bandeirantes foi a minha primeira emissora, mas depois trabalhei na Rede Globo e na TV a cabo.
JC – Tem muitas lembranças dessa época?
Ademir – Muitas boas e outras nem tanto. Trabalhei pela Rede Globo em algumas cidades do Mato Grosso do Sul, como Dourados, Campo Grande e Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai. Morei nesse país, inclusive. Foi um período de grande aprendizado. São lugares violentos com contrabandos e assassinatos por encomenda.
JC – Passou por algum tipo de perigo enquanto trabalhava?
Ademir – Tenho muitas histórias. Fui ameaçado de morte três vezes em Ponta Porã enquanto fazia reportagens. Passei por grandes apuros fazendo uma matéria sobre contrabando de remédios quando fui entrevistar uma pessoa que estava sendo acusada. Para você ter idéia do perigo, fui ameaçado de morte com uma pistola calibre 380 apontada para mim a dois metros de distância. Vi a morte de perto naquele dia.
JC – Você trabalha muito próximo à política. Já pensou em se candidatar?
Ademir – Já tive vários convites, mas acho que fica difícil conciliar o jornalismo com política partidária. Penso assim porque no jornalismo você trabalha com informação e, na medida do possível, de forma neutra e imparcial. Quando você pensa em política partidária precisa fazer uma opção, já que as duas coisas não casam muito bem. Por enquanto isso não faz parte dos meus planos. Como dizem: “não é muito a minha praia”.
JC – Hoje você é engajado em movimentos sociais...
Ademir - Eu comecei a militar em movimentos sociais em 2005 a convite do primeiro presidente do Conselho da Comunidade Negra e sou presidente do Conselho desde 2008. À frente do conselho, por exemplo, participei da etapa Conferência Municipal da Promoção da Igualdade Racial e, depois, com graças ao empenho pessoal do prefeito Rodrigo Agostinho, Bauru sediou a etapa regional, que elegeu delegados para a conferência nacional.
JC – Fale sobre o Conselho da Comunidade Negra?
Ademir – Somos em 20 membros, cinco do poder público e 15 da sociedade civil. Ele foi criado em Bauru por uma lei municipal e, de lá para cá, a nossa proposta é trabalhar no sentido de criar políticas públicas ou, no mínimo, incentivar a criação delas para que as minorias, de forma geral e em especial os negros, possam desfrutar de seus direitos. Hoje, a população negra é tolhida em muitos de seus direitos e não tem as mesmas oportunidades que as pessoas não negras.
JC – Onde fica mais evidente sua constatação?
Ademir – No mercado de trabalho, por exemplo. As melhores vagas ficam com as pessoas que não são negras. São poucos os cargos de chefia ocupados por negros. No acesso à mídia isso também fica bem evidenciado. Eu fui um dos primeiros jornalistas negros a aparecer na TV em uma região grande como a nossa.
JC – Você sentiu um certo preconceito na época?
Ademir – Senti. As pessoas olhavam diferente e até me perguntavam se aquilo não era motivo de orgulho para mim.
JC – E o que você respondia?
Ademir – Eu dizia que eu gostaria que fosse motivo de orgulho se, a partir daquele momento, mais pessoas negras pudessem participar e estar em evidência com seu trabalho. Isso porque não é tão comum um negro aparecer na TV. Agora é que está havendo mudanças e que os papéis de pessoas bem sucedidas estão sendo representados por nós. Falo algumas línguas, como inglês e espanhol, e sinto um certo preconceito quando as pessoas me escutam falando com estrangeiros. Isso aconteceu muito quando eu era repórter.
JC – Para você, onde está o maior preconceito?
Ademir – Eu costumo dizer que o maior problema é o racismo institucional, aquele praticado pelas instituições. A partir do momento em que uma empresa privada, uma igreja ou o poder público acaba praticando o racismo ou até mesmo a homofobia, a população pratica também. Um exemplo claro é o poder público que, há muito tempo deveria ter adotado o ensino da cultura africana nas escolas, já que grande parte da população brasileira é de origem africana. Então temos uma lei que obriga as escolas a ensinar essa cultura, mas até agora isso não é praticado com eficiência. Esse é um exemplo de racismo institucional. Se há 100 anos, por exemplo, fosse ensinado para crianças que o caráter da pessoa não depende da cor, hoje esse preconceito estaria bem menor ou praticamente extinto.
JC – Mas você não acha que esse preconceito vem diminuindo?
Ademir – Vem, mas é um processo muito lento. Se isso fosse aplicado e discutido mais e melhor nas escolas, diminuiria e muito. A partir do momento em que as instituições passarem a trabalhar contra o racismo, a diferença e a distância entre as raças vão diminuir.
JC – O que você tinha em mente quando aceitou ser presidente do Conselho da Comunidade Negra?
Ademir – A primeira coisa era fazer com que o Conselho fosse mais conhecido pela sociedade e que ela ficasse por dentro do seu papel e de suas funções, e nós conseguimos isso até certa forma. Hoje temos um site, o www.ccnbauru.wordpress.com, que é uma forma de estarmos inseridos na mídia e do Conselho ser mais conhecido pela sociedade, com o intuito de que ela nos ajude nessa luta.
JC – Vocês já tiveram vitórias?
Ademir – A própria criação do Conselho é uma vitória. Temos um advogado que atende, gratuitamente, as pessoas negras que se sentem discriminadas. Nós realizamos eventos com campanhas e cursos de esclarecimentos para os negros. Os temas são variados, mas saúde e consciência são os de maior destaque.
JC – Você é a favor das cotas raciais?
Ademir – Sou a favor porque acho que o Estado é um dos culpados pela situação precária de muitos negros hoje. O Estado patrocinou a escravidão que reflete até hoje na situação social do negro. Por que a maioria da população afrodescendente é pobre? Porque foi escrava no passado e depois da abolição não teve oportunidades e empregos, e isso se estende até hoje. Muitas pessoas são contra e alegam que não podemos privilegiar os negros, mas acredito que as cotas nas universidades é uma maneira de reparação imediata e emergencial.
JC – O que você pensa sobre a Semana da Diversidade?
Ademir – Falei muito sobre o racismo sofrido pelos negros, mas nós do, Conselho, temos trabalhado muito sobre a questão da diversidade e estamos com a comunidade dos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros (GLBT). Estive em São Paulo e em Brasília participando de reuniões sobre a promoção da igualdade racial. Estamos trabalhando muito a questão da diversidade e apoio o evento, inclusive vou participar, hoje, da Parada da Diversidade. A Constituição diz que somos todos iguais perante à lei, mas eu colocaria uma vírgula e diria que somos iguais, porém diferentes. Mulheres, crianças, homossexuais, idosos, negros...Cada um tem uma peculiaridade e precisa de uma política pública específica.
JC - O que você gosta de fazer quando não está trabalhando e militando?
Ademir – Sou um homem comum e gosto muito de ver jogos de futebol, seja na TV ou nos campos. Além disso, sempre estou nas salas de cinema e em bares que tocam MPB.
JC - Gostaria de deixar um recado para a sociedade?
Ademir – Acho importante que as pessoas se unam e lutem por sua causa. Lutem contra os preconceitos, homofobia...Enfim, é preciso a união para que tenhamos um país melhor para se viver e onde as pessoas possam ser respeitadas independente da cor da pele, sexo, religião, idade ou preferência sexual.
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Perfil
• Nome: Ademir Elias
• Idade: 51 anos
• Local de Nascimento: Duartina
• Signo: Peixes
• Filhos: Thaís
• Hobby: Ver jogos de futebol
• Livro de cabeceira: “Sociedade em Rede” de Manuel Castells
• Filme preferido: “À espera de um Milagre”
• Estilo musical predileto: MPB
• Time: Palmeiras e Noroeste
• Para quem dá nota 10: Para a mãe, Nedina Lopes Elias
• Para quem dá nota 0: Ao preconceito, racismo, homofobia e intolerância religiosa
• E-mail: ademireli@yahoo.com.br