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Aventura: Um ‘louco’ de moto no fim do mundo

Por Gabriel Pelosi | Com Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 15 min

O motociclista bauruense Alexandre Munhoz de Freitas, 27 anos, um “louco”, no melhor sentido, percorreu 5.800 quilômetros de Bauru à Patagônia, na Argentina, em um mês - 13.115 no total, durante um mês -, para chegar onde a temperatura máxima é de 5º graus, no verão. Isso porque o ponto final é conhecido como Terra do Fogo.

O trajeto de ida acabou em um lugar chamado Baía Lapataia, no Parque Nacional Tierra del Fuego, na região de Ushuaia, considerado o fim do mundo do Hemisfério Sul por ser a última cidade no extremo do continente. Neve e moto só poderia dar em muitas quedas. “Fui e voltei, problema pra caramba, mas...”, comenta Freitas. Mas ele voltou para contar sua aventura radical ao guidão de uma XT660. A seguir Freitas conta os detalhes de como superou essa tremenda aventura:

Jornal da Cidade – Qual o maior problema que teve?

Alexandre Munhoz de Freitas - A surpresa de como é você pilotar uma moto em cima do gelo. Pra você ter uma idéia, as dificuldades: frio, gelo, pilotar sobre o gelo, como a moto se porta no frio, porque você tem problema com o óleo. Ele engrossa e isso leva você ter problemas com parte mecânica, rolamento, corrente. Muitas vezes eu havia determinado andar “x” quilômetros em um dia. Mas em função do gelo, do barro, do frio não era possível. As estradas que eu previ que seriam de terra, preparei a moto pra isso. É uma região que neva muito, forma gelo, esse gelo derrete e vira um lamaçal. O barro que vai subindo na moto, vai para o motor, radiador. Ferve o motor e aí você precisa de água e não tem. Quando você consegue está ali perto de zero grau e para você trabalhar com água para poder lavar a mão? Cheguei num hotel, bem simples, e havia uma banheira dentro do quarto coletivo. Eu descia, escondido, desmontava a moto, pegava as peças e, enquanto tomava banho lavava as peças da moto.

JC - E funcionou esse sistema de lavar a moto?

Freitas - Funcionava, só que eu tive que lavar a moto durante a viagem umas três ou quatro vezes. E devido a quantidade muito grande de barro, a corrente se tornou um pouco dura e, por mais que eu lavasse e lubrificasse, ela escapou três vezes.

JC – E o trecho da Ruta 3?

Freitas - É a estrada que desce para o litoral argentino. Ela começa perto de Buenos Aires e termina, entre aspas, no final do território argentino, porque se torna território chileno. Você atravessa para o Chile, pega a balsa, aí você roda 110, 120 quilômetros de estrada de terra, passa para a Argentina de novo e aí ela se torna Ruta 3. Aí ela é dividida ao meio. Ela se torna Argentina de novo. Eu vim até Ushuaia, e aí você anda mais um pouco até a hora em que acaba a estrada. Fui até o fim.

JC – Em que condições de rodagem?

Freitas – Não é duplicada, é uma pista simples, mas o asfalto sempre é tranqüilo. Ela é sempre desértica e tem lugares onde se roda 200, 300 quilômetros sem nada.

JC – Mas onde ela termina mesmo?

Freitas – À frente de Ushuaia. É onde termina a Ruta 3, num lugar chamado Baía Lapataia, que é onde tem um parque chamado Parque Nacional Tierra del Fuego. Foram 5.800 quilômetros, só de ida.

JC – Alguém se surpreendeu com você de moto por lá no frio?

Freitas - A hora que passei no primeiro posto de combustível o pessoal disse: “Puxa, mas você está de moto?” Eu falei: “Sim”. Eles falaram: “Você veio na época errada, ninguém vem aqui de moto no inverno, você é a primeira pessoa que a gente vê, você veio no momento errado”. Aí eu expliquei que era uma idéia diferente, de ver como que realmente era. Aí me falaram que mais ao sul já estava com gelo, estava nevando. Mesmo assim eu insisti e o pessoal disse: “Você não vai agüentar”. Mas fui. Aí tomei um tombo na ida, outro tentando voltar, a hora que eu consegui pegar o rumo para começar a voltar levei mais um tombo, este bem mais forte. Esse quebrou o protetor da moto. Continuei seguindo para o sul, só que começou a escurecer muito rápido. Eu falei: “É melhor voltar, acho um lugar pra dormir e amanhã eu vejo o que eu faço”. Aí passei no posto para abastecer de novo e o pessoal, se mijando de dar risada, me disse: “Está vendo? A gente avisou.”

JC – O que você fazia quando chegava a algum lugar?

Freitas - A primeira coisa é procurar um lugar pra ficar. Se chegou um pouco cedo, se dá para acampar, ou se de repente você vai buscar fazer amizade com alguém, trocar uma idéia, pra você ter a oportunidade de conhecer um pouco da cidade, e de repente ter a indicação de um lugar mais barato. Muitas vezes convidam você pra dormir na casa deles, como aconteceu em alguns lugares.

Em segundo lugar, você parar e analisar como é que a moto se portou durante aquele dia, para você ver se precisa de alguma manutenção, buscar alguma peça. Depois, se alimentar. Feito isso, lavar roupa, escrever, fazer as anotações no diário, analisar o que se gastou, o que não se gastou, como é que está o dinheiro, ver se vai ser necessário alguma alteração de roteiro, se possível buscar na Internet, jornais ou com a própria população como é que o tempo está se portando ali, qual a previsão do tempo pra região para os próximos dias.

JC – E o caminho até Ushuaia?

Freitas – Atravessei uma balsa, que vai sair do continente e vai pra ilha da Terra do Fogo, e era um trecho de aproximadamente 250 quilômetros. Havia um posto de combustível no meio do caminho, só que esse posto está em território chileno e me disseram que aceitariam o dinheiro argentino. Não! Só dinheiro chileno. E a partir desse momento eu teria 120 quilômetros de estrada de terra. Olhei pra moto e falei, você vai ter de fazer uns 22 quilômetros com um litro, ela estava fazendo 16. Olhei pra moto, concentrei e vi um ônibus saindo da estrada de terra, que se transformou numa Transamazônica. Lama, gelo, neve, tudo o que você imaginar, e com um pequeno trânsito de caminhões. Tinha de andar devagar para economizar combustível, não podia andar muito rápido porque a minha suspensão dianteira já estava com problema e começando a vazar muito óleo. A hora que eu ia podar um caminhão eu não podia ficar olhando pra frente. Tinha de abaixar a cabeça em cima do tanque da moto pro barro do caminhão não sujar a viseira, porque se eu tirasse a mão pra fora e molhasse a luva, congelava. Faltavam 10 quilômetros para eu chegar na fronteira com o Chile e acabou a gasolina. Vinha vindo um caminhão, fiz sinal, o cara parou e disse que me levava até a fronteira. E a moto? Tive de largá-la no meio do nada, com todas as coisas lá, tirei só o capacete e a bolsa com a máquina fotográfica. Não tem o que fazer, você tem que largar lá. O cara me levou até a fronteira com o Chile.

JC – E o que você fez?

Freitas - Dali eu teria de caminhar mais 10 quilômetros até a Argentina para conseguir combustível. Passei pela casinha do exército chileno, expliquei para o pessoal e me deram uns três litros de gasolina, me emprestaram um funil e teria de voltar 10 quilômetros andando até a moto. Mas consegui carona com um cara que era apaixonado por moto, que me deu um par de luvas que ele tinha. Abasteci a moto e lenha. Passei na polícia chilena para devolver o funil que tinha emprestado. Atravessei, fiz uns trâmites lá, todo embarreado e consegui chegar na Argentina.

Abasteci e, a partir desse ponto, o pôr-do-sol foi fantástico. O sol está sempre no horizonte, e devido à massa de ar frio que tem sempre perto do mar e das montanhas, gera uma coloração meio avermelhada, amarela, violeta. Daí cheguei na cidade de Rio Grande, onde tinha um amigo que conheci pela Internet, do Clube XT. Cheguei, o cara já estava me esperando, tirando fotos, fizemos uma janta, e no dia seguinte eu teria 220 km até Ushuaia. Só que esses 220 km, sempre por serra e com gelo. Levei mais ou menos umas 6 horas pra fazer esse trajeto, como eu já estava com o pneu melhor para o gelo, já não escorregava tanto e tinha melhor condição de pilotagem, deu pra ir tranqilo, sempre tirando foto. Você chega em Ushuaia, tem a visão da baía, do Estreito de Beagle.

JC – É tudo asfaltado até Ushuaia?

Freitas – Sim, só que eu tinha um problema. Porque se é estrada de terra com o gelo é mais fácil de andar do que na estrada de asfalto com gelo. O gelo se torna mais fofo e quebra mais fácil, mas no asfalto ele escorrega. O tempo todo, o osso parece que vai trincar. Em Ushuaia tirei um dia para descansar. Lugar pra ficar? Albergue, que é o lugar mais barato. Camping? Esquece. Busquei um camping. Cheguei lá, era gelo, gelo, gelo, não tinha condição. Depois de uns três dias em Ushuaia, era hora de começar a voltar. Voltei os 220 km de gelo, só que em Ushuaia o que eu fiz? O pessoal usa nos carros uns pinos de aço no pneu como se fossem pequenos pregos pra rodar melhor no gelo. Coloquei isso na moto, aí já dava pra andar mais sossegado.

E enquanto estava lá o tempo todo sempre com sol. Foi assim uma exceção no clima, parece que estava tudo conspirando a favor. Três dias depois que eu saí de lá caiu uma nevasca que entupiu a cidade. Saí de Ushuaia com o tempo bacana.

JC – E a motivação para voltar depois de tantos problemas?

Freitas - Você tem que voltar, não tem opção. A única opção que te resta, se estiver cansado, é contratar uma transportadora e colocar a moto dentro. Só que eu não queria voltar pela Ruta 3. Eu sempre me informava de como estaria a Rota 40, que vem beirando a cordilheira. Era uma época que neva muito e você vai passar 300 quilômetros sem conversar com ninguém. E se te acontece algum problema você vai ficar por lá. Mas era a região que mais queria conhecer.

JC – E a Cordilheira?

Freitas – A gente não sabe se é onde começa ou se é onde termina a Cordilheira. Assim como no Ushuaia, o pessoal fala, fim do mundo ou início de tudo. Até porque aqui é a cidade mais austral de todo o mundo e, se você tiver pique pra nadar 800 quilômetros, chega na Antártica. Achei uma pensão pra eu ficar, em Porto Natales.

Saí pra dar umas voltas à noite. Vejo dois carros do Brasil. Um Renault Clio e um Corsa Sedan. Parei, fui conhecer os caras. Eles disseram que me viram em Ushuaia e eles fizeram o mesmo caminho que eu. Expliquei que eu tinha a idéia de voltar pela Rota 40. Tinha algumas informações sobre ela, pois diziam que estava com neve, com gelo, mas não sabia se eu voltaria por lá. Eles estavam com a mesma idéia mas tinham receio. Tomamos uma cerveja à noite, comemos uma pizza. E conversamos sobre formar uma equipe. Sentamos à noite num barzinho e decidimos que iríamos seguir juntos, mais seguro pra eles, mais seguro pra mim.

Eram dois casais, cada casal em um carro, eles estavam em lua de mel. De Porto Natales, acordamos no dia seguinte, fomos conhecer o maciço do Torres del Paine, que é uma formação fantástica. Rodamos uns 150 km de estrada de terra e gelo e você vê o Clio e o Corsinha dançando no gelo, parecendo um caranguejo. Tiramos umas fotos e fomos até a cidade de El Calafate, já na Argentina, onde chegamos à noite. Achamos uma pensão que tinha até churrasqueira, lugar super barato que tinha onde deixar a roupa secando. Eu pude trocar a roupa, lembrando que a primeira eu fui trocar 11 dias depois. Em El Calafate é o lugar onde tem os glaciares, que são os blocos de gelo que se formam na região. Você tem alguns lugares onde você pode vê-los do continente. Fomos todos juntos, naquela friaca, ver uma parede de gelo de 60 metros de altura por 14 de profundidade. É um visual fantástico. Voltamos para a cidadezinha, fomos ao mercado, compramos carne e fizemos um churrasco ali. Porque os próximos dias seriam dias difíceis. A partir daí seriam seriam 650 quilômetros mais ou menos por estrada de terra, até a próxima parada.

JC – Vocês iriam para onde?

Freitas – Ruta Nacional 40. A mística rodovia argentina, pois gente de todo o mundo vai para lá para passar por esse lugar. Mas no verão, a gente queria saber como era no inverno. A gente programou de rodar 650 km. Não tem como você começar a rodar às 7 da manhã. Tem que esperar o sol nascer, às 9h, 10h da manhã. Você tem que esperar passar um pouco o frio e sumir um pouco o gelo do início do asfalto. Só que, devido à quantidade de gelo e as dificuldades da estrada de terra, pedra e aquele negócio todo, até que eu andava rápido, mas os caras andavam muito devagar, pois não tinham preparação nenhuma. Deu duas horas da tarde, nós tínhamos percorrido apenas 300 quilômetros. Faltavam mais 350.

JC – Por que eles andavam devagar?

Freitas – Porque os carros não tinham proteção nenhuma embaixo, você corre o risco de pegar uma pedra, bater no carter, na junta homocinética, rasga um pneu.

JC – E como vocês se viraram?

Freitas – Chegamos ao primeiro ponto de abastecimento. A gente não teria lugar pra dormir, a não ser que dormisse no carro. Mas tem uns bichos esquisitos lá na região, deserto, não é? Nisso começa a chover. Na estrada de terra. Aí o tempo melhora. Escapa a corrente mais uma vez. Aí eu fui ver que a corrente já estava dura e, por mais que eu colocasse lubrificante, ela não desengripava. Continuamos tocando. Pedacinho de asfalto, terra de novo. E fomos tocando.

De repente, o tempo que previa que iria escurecer por volta das 5, 6 da tarde escureceu por volta das 4h30. Começou a chover, e aquele barro, você no meio do deserto e a estrada não é demarcada. Existe um caminho e você vai seguindo ele. De repente, vai chegando uma região de serra, uns precipícios lá pra baixo, e não tinha mais o que fazer, tinha que rodar. E a viseira do capacete embaçando por causa do frio, o farol da moto com tanto barro na frente não iluminava mais nada, eles um pouco mais devagar, eu um pouco mais à frente, até pra poder ver se tinha algum obstáculo, alguma coisa assim, e a hora que você acha que tudo está difícil pode piorar, e a chuva aperta e o frio aumenta.

JC – Qual a região?

Freitas – Província de Santa Cruz, que é a província menos povoada da Argentina. Faltava uns 200 quilômetros, e nesse esquema, já à noite, tipo 7h30, 8h da noite, e eu andando rápido. Aí eu parava, esperava o pessoal. Aí comecei a pensar que na hora que eu chegar no asfalto vou mandar bala porque quanto menos tempo ficar no frio pra mim melhor, porque eles estão de carro.

Chegou no asfalto, eu pensei, não, é melhor eu esperar todo mundo. Cara, e ali eu fiquei, e a chuva caindo, tudo escuro, aquele breusão, eu não tinha o que fazer. E eu tive que ficar parado por mais ou menos uma hora esperando até eles chegarem. Chegamos em outra cidade, dormimos e, no dia seguinte, estourou a corrente da moto. Sorte que o pessoal tinha ferramentas para me ajudar. Rodamos mais e, um dia depois, nos separamos e continuei sozinho. Cheguei em Bariloche, que foi o lugar mais feio da viagem.

JC - Mas não é uma cidade turística?

Freitas - Sim, mas o pessoal só conhece os lugares mais bonitos. Eu entrei por uma favela e me decepcionei com a cidade. Além disso, no outro dia enfrentei o dia mais frio da viagem.

JC - Onde era?

Freitas - Era uma região da Cordilheira onde as montanhas são altas e o sol não bate. Fiquei cercado por uma nuvem de gelo que, por mais que tivesse sol, era frio de doer. Começou a congelar a viseira e tive que rodar com ela levantada. Os olhos começaram a lacrimejar, a retina começou a congelar até que resolvi parar e ficar com o rosto perto do motor da moto para esquentar.

Daí rodei por outras regiões e voltei a encontrar novamente os dois casais. Voltamos a nos despedir e segui sentido Uruguai. Atravessei o norte do Uruguai e cheguei ao Rio Grande do Sul. Daí senti que tinha chegado, pois enfrentei congestionamentos terríveis. Dali fui para Curitiba e cheguei em Bauru.

JC - Você disse que gostaria de agradecer quem te ajudou...

Freitas - Não faria essa viagem sem o apoio de algumas empresas, como Eletroponto, Pro Markt, Pako Color, Oeste Vedações, Gilfer, Agepe Eletromecânica e Henry Motos. Contatos com Alexandre podem ser feitos pelo e-mail recusa@terra.com.br. No Orkut basta acessar Alexandre Munhoz.

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