Articulistas

Revogar o irrevogável

José Renato Ferraz da Silveira
| Tempo de leitura: 2 min

Depois do artigo “O Jardineiro e os dois criados”, me despedi, assombrosamente, dos leitores do JC, em virtude de problemas pessoais que tomaram rumos e proporções assustadoras. Não como verdadeiras tragédias shakespearianas ou contos mórbidos de Edgar Allan Poe. Longe disso! Parecia mais um desespero trágico e revolta sartriano.

Na verdade, a direção sombria do meu destino, demasiadamente humano, estava ligado as decisões de alguns homens inescrupulosos que abalaram, mais uma vez, a minha confiança na espécie humana.

Na verdade, caro leitor, o meu forçado “adeus” justificava-se no temor do meu mau-humor, sarcasmo ou pessimismo, encobrir como as nuvens cinzas de agosto, as “alegres manhãs de sol” de setembro dos meus amigos, colegas e leitores.

Porém, sou obrigado a “revogar o irrevogável”. Sim, caro leitor! Isso virou moda no Senado Federal! E acontece no nosso dia-a-dia. Você já deve ter acreditado na palavra de algumas pessoas importantes que falharam contigo na hora H.

O nosso perigo particular diante dessa “falta de firmeza” no compromisso é justificar o amoralismo, a lassidão, a lei da selva como inevitável. Ou pior, tornamos, no futuro, iguais.

Vivemos, alimentamo-nos, educamos, amamos, procriamos, trabalhamos. Por quê? Goethe respondia: “No desejo de erguer tão alto quanto possível nos ares a pirâmide da minha existência, cuja base me foi dada completamente construída”. E eu concordo com o poeta alemão! Seria para si uma maneira muito nobre de construir a nossa vida, de fazer dela uma obra-prima. É verdade que a base nos é dada totalmente construída. Veja o meu caso: nasci na capital paulista, numa família de funcionários públicos; meus pais, tinham-me inspirado o gosto pelas Letras e Filosofia. Deram-me uma educação e formação moral sólida.

Aconselho, ao amigo leitor, se aspira a construir uma grande obra, seja literária, científica, política e industrial, entregue-se por completo e a todo instante. Na construção de nossa obra-prima, não percamos tempo com coisas fúteis! É um erro grave! É um tempo inútil! “O tempo urge e o Universo não espera”.

Muitas vezes assumi certas tarefas por cúmplice gentileza. Não pequei por ambição nem por avidez. Não sabia recusar com dureza, única maneira de recusar, nos dias de hoje!

Escolha bem o ponto de aplicação do seu projeto de vida e então, feita a escolha, seja constante, ardente e penetrante.

O objetivo não é vencer, no sentido absoluto de brilhar. O objetivo é cumprir, o melhor de que for capaz, a função que tenha escolhido. É encontrar as razões para se sentir orgulhoso da sua obra, ou pelo menos, não se envergonhar dela. É ter uma mistura doseada de prudência e audácia. Além de conservar, em todas as circunstâncias, a decência, a dignidade, e, é claro, o respeito ao próximo.

O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é doutorando em Ciência Política pela PUC-SP. Mestre em Ciência Política pela PUC-SP. jreferraz@hotmail.com

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