Tribuna do Leitor

Os heróis e o tempo


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Ao escutarmos a palavra herói, somos invadidos por uma sensação nostálgica, provocada por todas aquelas histórias herdadas de nossos pais e lidas nos livros. Quantos de nós já nos emocionamos com episódios das vidas de Joana D´Arc, Carlota Corday, Che Guevara e Olga Benário? Desde a infância recebemos uma instrução que nos leva a admirar tais personalidades, ante ao argumento de que lutaram por justiça social e melhorias para o ser humano e suas instituições. Somos condicionados a tomá-los como exemplos e insuflados a crer na possibilidade de mudar o mundo através dos valores que eles defendiam. Todavia, nada é tão contraditório quanto a história desses heróis e isso é facilmente observável ao nos atentarmos para o fato de que, na época em que surgiram, suas idéias representavam um perigo social e às Instituições. A sociedade, em realidade, os temia. Em regra, todo herói é estopim para convulsões sociais, ações armadas e revoluções.

Basta lembrarmos das atividades desempenhadas pelos comunistas no século passado. Chefiados pelo partido Comunista na União Soviética, seus membros recebiam treinamento militar e preparação ideológica, para, em seguida, serem espalhados por todo o mundo com objetivo de trabalharem pela revolução e instalação da Ordem Comunista. Para a sociedade da época, tratavam-se de criminosos de alta periculosidade. Como então um criminoso de uma época poderá ser o herói de uma geração futura? Mokiti Okada, um sábio japonês, afirma que tudo que existe no universo, inclusive aquilo que está relacionado ao ser humano, é regido pelo Tempo. Sob este raciocínio ainda observa: “[...]A delimitação do apogeu e da decadência subseqüente, das mudanças históricas, das definições do bem e do mal, da justiça e da injustiça, tudo está subordinado a ele. Por esse motivo, o que agora é um bem daqui a alguns anos poderá ser um mal, e aquilo que hoje é considerado verdade poderá ser desprezado amanhã, por tornar-se falso. (Alicerce do Paraíso, V. 4, p. 103).”

O Tempo, por conseguinte, é a categoria absoluta que mede todas as coisas existentes no universo. Mas a ação do Tempo limita-se somente a alguns aspectos relacionados ao homem, tais como valores morais, normas, aspectos culturais, ideologias, etc. No tocante ao interior humano, constatamos que poucas são as mudanças processadas pelo Tempo, sendo esta a razão de inúmeras contradições na história de nossa civilização. Ao avaliarmos o contexto em que vivemos e as pessoas que admiramos, verificamos que o caráter do homem ainda é selvagem, pois não nos libertamos da constante disposição à violência. Por maiores que sejam os avanços científicos em nossa época, o caráter humano ainda não evoluiu e, com isso, a violência tornou-se sutil e muito mais destrutiva. Estamos tão ludibriados que até encaramos a selvageria como inerente à raça humana.

Qualquer que seja o movimento (terroristas, facções, quadrilha), observa-se a semelhança existente: todos são formados com base em ideais e não se sopesa meios para obtenção dos fins, nem que para isso seja necessário usar de violência. E por que não compararmos tais criminosos como os heróis que aprendemos a admirar? Todos foram considerados criminosos, cada um à sua época e usaram de violência para impor suas ideologias. A única diferença está nessa categoria chamada Tempo.

Desde o nascimento, somos induzidos, ainda que de modo involuntário, a buscar a felicidade apenas para nós. Essa é nossa auto realização e a base de uma Cultura egocêntrica, com base na violência, que nos lançou a uma busca constante por bens materiais e poder. Por todos os lados, vemos estampada nossa selvageria, aberta em todos os meios de comunicação. Não é preciso dizer que até na arte essa inversão de valores nunca esteve tão em destaque. Nem mesmo as animações infantis escapam desta situação lamentável. Não será nada espantoso se nossas gerações futuras começarem a encarar homens como Osama Bin Laden, Sadan Hussein ou Slobodan Milosevich como heróis. Afinal de contas, são homens que através da selvageria, buscam impor suas ideologias, tal como os heróis do passado. Tudo, enfim, depende do Tempo.

Nem tudo, porém, está perdido. Todo herói surge a partir da necessidade de progresso do espírito humano. A selvageria, portanto, a todo momento nos chama a atenção para que possamos rediscutir as falhas existentes em nossa cultura, pois valores como Justiça, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Dignidade Humana, somente são verdadeiros quando colocados em prática em nosso dia a dia.

Frases digitadas em papel não mudam o curso na história. É preciso que o ser humano liberte-se da selvageria, que alimentamos dentro de cada um, para que possamos corrigir as falhas em nossa cultura. Legislações rigorosas, maior justeza na distribuição de renda, educação de qualidade, são necessários, mas não são o ponto vital do problema, uma vez que constituem aspectos secundários. A essência de todas as mudanças encontra-se no ser humano.

O Bem Comum se tornará uma realidade no momento em que cada indivíduo passar a trabalhar pela felicidade de todos. A selvageria está na busca de satisfação apenas para si e a violência é decorrência do entrechoque de interesses. Assim, a busca pela eliminação dos sofrimentos humanos enfraquece-se por dispersão das forças e a humanidade a cada dia encontra-se mais caótica. Portanto, somente quando todos os homens, todos os povos, todas as etnias e classes unirem-se com o objetivo de buscar a eliminação dos sofrimentos comuns -doença, conflito e pobreza - nossa Cultura se libertará da Era selvagem, ingressando, finalmente, numa Era Civilizada.

Gisele Aparecida Pereira da Silva - http://gpensadora.blogspot.com, gpensadora@hotmail.com

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