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O especialista disse o óbvio

Alfredo Enéias Gonçalves d’Abril
| Tempo de leitura: 4 min

O especialista em assuntos de trânsito disse o óbvio depois de estudar por dois dias a movimentação de veículos nesta cidade, na área central e nos bairros, desfechando a palestra proferida basicamente para engenheiros com uma solução que já era esperada e com outra estapafúrdia ao sugerir a demolição do inacabado viaduto que unirá a avenida Nuno de Assis à Vila Falcão e remover os trilhos da Fepasa espalhados sob ele afim de urbanizar aquela área para servir de caminho aos pedestres.

Quem tomou conhecimento da síntese de sua palestra, promovida pelo Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo, reportada no Jornal da Cidade, edição de 12 último, e utiliza ônibus coletivo municipal ou automóvel próprio para locomoção nos quadrantes de Bauru só pode concluir que o especialista em trânsito possui uma visão própria, singular do problema, provavelmente suficiente ou satisfatória para melhor organizar o fluxo de veículos da cidade, ora consumindo recursos econômicos pequenos, ora investimentos de vulto o que não se viabilizará tão cedo. Contudo, olhando e solucionando teoricamente o problema de trânsito de modo diferente daquele cogitado pela população e de realidade viária habituada a se repetir a cada dia em doses cada vez mais problemática.

Alvitrou o especialista como agravamento do problema de trânsito a reduzida utilização do transporte coletivo urbano em detrimento do transporte individual por automóvel; o excesso de vias urbanas estreitas, denominando o aperto das ruas de “caixas viárias”, nome de maior efeito jornalístico e de expressão desconhecida entre nós; horários definidos para carga e descarga de mercadorias nas lojas centrais (o que já existe há tempos); criação de baias para estacionamento rápido de automóveis defronte a escolas (temos algumas e muitas em estabelecimentos comerciais); passagem subterrânea só para automóveis em cruzamentos críticos e, finalmente, a pior de todas as sugestões: demolir um esqueleto de viaduto que custou ao município uma dívida perto de R$ 20 milhões, o qual, uma vez concluído, terá a importante responsabilidade de deslocar parte da frota de veículos que se encaminha para a zona oeste da cidade e vice-versa.

É de se convir que se o município não fosse devedor de pouco mais de R$ 900 milhões, valor correspondente a dois anos e meio de sua receita anual e estivesse com suas economias equilibradas, teria meios de ir muito além das sugestões lançadas pelo especialista. Poderia, por exemplo, construir ou dar incentivo à construção pelo particular de garagens verticais em cada quadra do Centro da cidade, a exemplo do que fez a cidade de Miami (EUA) ou então levantar ruas e avenidas sobrepostas às jusantes, imitando aqueles intermináveis elevados que circundam Tóquio, a capital do Japão. Nessas duas cidades, não há congestionamento do trânsito urbano graças a esse tipo de planejamento, que custou os olhos da cara de quem podia pagar.

Todavia, como nossa realidade é outra, e dinheiro não há sequer para reformar a parte interditada de um viaduto que, segundo consta, tem estrutura comprometida, haverá de ser encontrada a solução desse problema sério, grave, real e palpável, de maneira cabocla, tupiniquim mesmo, com o apoio da sociedade, compreendida pelos homens de boa vontade que residem nesta cidade, sejam políticos ou não, e que desejam a fluidez do trânsito em melhor velocidade em relação àquela que o panorama diário estampa a desordem. O que mais se deseja é a conclusão do viaduto que não tem prazo para recomeçar e outros pequenos arranjos para esquadrinhar o sério problema causado pela paixão do automóvel como meio de transporte individual. Obrigar o dono do automóvel a seu aproveitamento de maneira mais racional foi uma idéia gerada aqui em São Paulo e encabeçada pelo jornal O Estado de São Paulo, há 10 anos, que não chegou a sair da esfera da boa intenção.

Ninguém convence o proprietário do automóvel a não aproveitá-lo individualmente e deixá-lo na garagem para locomover-se por ônibus urbano. O brasileiro não aceita privar-se de seu bem para seguir regras impostas contra uma cultura há meio século sedimentada. Então, como fica? Do jeito que está, porquanto dizem que a crise econômica mundial terminou no Brasil e, com a volta da prosperidade, aumentará ainda mais o número de veículos particulares circulando nas “caixas viárias” do jeito que estamos vendo.

O autor, Alfredo Enéias Gonçalves d’Abril, é professor universitário aposentado

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