Caroline, minha neta, mora comigo desde que nasceu. Em novembro de 2003 havia eu achado em celular na rua. Caroline sempre manuseia um celular melhor do que eu. Recorri, portanto, a ela para achar na tela do celular indícios do dono. Ela estava com 14 anos e, com ares de suposta sabedoria, me disse: “Vô, não seja bobo. Ninguém devolve nada a ninguém. Achado não é roubado. Vamos ficar com o celular“. Devido a sua pouca idade ela era uma aprendiz da vida. Eu, com 62 anos naquela época, fiz o que era eticamente correto. Devolvi o celular.
Passou-se um mês. Em 23 de dezembro, à noite, ela chegou em casa decepcionada. Perdera o celular. Nunca mais o veria. Quem devolveria um celular tão caro? Disse a ela que no mundo ainda há pessoas honestas. Muito cética, ela replicou: “Já era, vô”. No dia 24, véspera do Natal, alguém me avisou ao telefone que encontrara o celular de Caroline. Aquilo mexeu com ela. Ela então disse: “Vô, você estava certo. De hoje em diante vou devolver algo achado”. Houve uma mudança de comportamento. Houve, portanto, uma aprendizagem.
Gilberto Sidney Vieira