Construir boas estradas com sinalização adequada é segurança pública? E vacinação? Bombeiro também é segurança pública? Cada questionamento do coronel da reserva Nilson Giraldi tem uma única resposta: sim. Mas têm relação com polícia? Não. “Segurança pública é tudo aquilo que é feito para proteger o cidadão”, explica ele.
Com tal posicionamento, Giraldi participou, no final de agosto, da 1.ª Conferência Nacional de Segurança Pública, realizada em Brasília. No oportunidade, no entanto, a pauta foi restrita a assuntos pré-determinados pelo Ministério da Justiça. “Foi um fórum democrático, onde todos os segmentos da sociedade estiveram presentes. Só que essa democracia absoluta foi engessada. Não podíamos sair dos temas. Toda segurança pública foi jogada nas costas da polícia, quando não é verdade”, diz.
Giraldi gosta da analogia com jogo de futebol. A bola só chega ao gol depois de passar pelo ataque, meio de campo e defesa. A polícia está no final da linha, seria o goleiro. “Quais são as causas da violência e da criminalidade? Segurança pública é um problema social e educacional. A própria Cruz Vermelha, os Direitos Humanos e a Organização das Nações Unidas (ONU) concordam com isso”, ressalta. Mas salvo algumas exceções, a abordagem mais ampla não interessa.
“Para uma corrente, o secretário de segurança pública deveria ser um educador. E eu concordo. O Parque Jaraguá, por exemplo, é um bairro complicado. Qual é a solução? É policial? Não. Tem que transformá-lo num bairro educador, aumentar a auto-estima das pessoas e investir no capital humano”, defende. Projetos dessa natureza devem ser financiados com recursos na União, Estados, municípios e também particulares.
“Elevando esse bairro a educador, ele deixará de formar criminosos. Não que criminosos ou pessoas violentas sejam oriundas da pobreza. Não são não. A maior violência está na classe média. Aparece mais entre os pobres porque são a absoluta maioria. Mas pobre tem muito mais dignidade para enfrentar as dificuldades das vida do que ricos e classe média”, comenta. Giraldi é contra a instalação em Bauru da Guarda Municipal, que está em discussão.
“Fica caro. Pega esse dinheiro e aplica em questões sociais e educacionais. Para que a Guarda Municipal disputando o mesmo espaço que a Polícia Militar?”, conclui.
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Sociedade civil deve se envolver mais com o tema
A sociedade civil deve se envolver mais com questões relativas à segurança pública. A opinião é do coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, compartilhada pelo titular do 1.º Distrito Policial de Lins, André Ricardo Hauy. Ambos também estiveram na 1.ª Conferência Nacional de Segurança Pública.
“Precisam participar mais porque não vamos fazer segurança pública colocando um policial em cada esquina. Tem que acatar problemas sociais porque a marginalidade aumenta onde falta investimento social do Estado. Temos que investir no preventivo”, diz. Para Hauy, durante o evento no Distrito Federal, ficou claro o interesse da sociedade civil. Mas a expectativa dele é que seja cada vez maior.
O delegado ainda compactua com a idéia de que segurança pública deve ser uma política de Estado e não de governo (suscetível a questões partidárias). O posicionamento é o primeiro dos dez princípios priorizados na conferência. Todos eles, assim como as 40 diretrizes tiradas, foram elencados por meio de votação.
Até árbitros tomavam posição nas discussões, situação que resultou numa carta de repúdio assinada pela Polícia Civil e sociedade civil. “Mesmo assim, pela envergadura, pela iniciativa do governo federal em colocar o dedo na ferida, valeu a pena”, pondera Hauy. Graças à iniciativa, 500 mil pessoas opinaram sobre o tema.
“A alma do negócio foi o investimento em infra-estrutura de uma forma geral e a valorização do profissional que trabalha na área de segurança. Atualmente, ele está meio judiado e precisa tentar resolver o problema da coletividade. O investimento no ser humano que trabalha com segurança pública se faz necessário”, conclui Brito.
Ele, o delegado e o coronel Nilson Giraldi apresentaram suas posições na última reunião do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Centro/Sul, há cerca de duas semanas em Bauru. A reportagem procurou a Polícia Civil, mas a Secretaria de Segurança Pública informou que não abordaria a questão por ser órgão executor. A assessoria da Polícia Militar explicou que o assunto é do interesse da corporação, mas que anteontem o comandante geral da PM, coronel Álvaro Batista Camilo, não dispunha de horário para.