Com a demissão da ministra Erenice Guerra o governo pode não ficar livre de todos os problemas. Mas, pelo menos tira o foco da Casa Civil onde a oposição procura a tal “bala de prata”, com a qual pretende jogar as eleições para o segundo turno. Lula poderia ter sido mais rápido, seguindo a regra de ouro na política: quem ocupa cargo público tem que ser igual à mulher de César, o imperador romano – não basta ser honesta, tem que demonstrar constantemente que é. Se bem que o historiador Marcus Suetonio Tranquilus, morto em 122 da era cristã tenha contado que César arrancava todos os pelos do corpo com pinças e era chamado de “marido de todas as esposas e esposa de todos os maridos”. Uma situação que é possível denotar com a promiscuidade entre o público e o privado, nunca vista na história deste país.
É curioso que as pesquisas eleitorais não reflitam o que dizem os jornais e a oposição, por consequência. Apesar de todo esse bombardeio contra a Casa Civil que já dura seis anos, a candidata Dilma Rousseff a rigor não perdeu um ponto sequer na contagem geral das intenções de votos. Perdeu sim, alguns votos entre os mais ricos e escolarizados. Mas, o seu adversário José Serra não ganhou esses pontos perdidos. Eles foram para Marina Silva, do PV, a quem os veículos de comunicação agora tentam inflar para conseguirem o segundo turno a José Serra. Por essas mesmas pesquisas, Dilma Rousseff, mesmo assim ganharia as eleições, se elas fossem hoje, no primeiro turno. Assim como ganhará no segundo turno, mantidas as relações de força constatadas hoje. A cabeça de Erenice Guerra, para a massa eleitoral pouco ou nada significa. “O que eu tenho a ver com isso?” – pergunta a própria Dilma. Tudo, já que Erenice não tem existência própria sem Dilma, assim como Dilma não existe sem Lula. Erenice não chegaria ao Ministério sem o apoio de Dilma, nem Dilma seria candidata à presidência da República sem Lula querer. A Casa Civil – o gabinete mais importante da República depois do presidencial – já foi o centro de três escândalos, um, pior que o outro. Em 2004 descobriu-se que o braço direito do então ministro José Dirceu era dado à prática de extorsão. Waldomiro Diniz, ex-cobrador de ônibus em Bauru foi filmado pedindo propina a um bicheiro. Demitido “a pedido”, nada mais aconteceu. Em 2007 descobriu-se que fora produzido na Casa Civil um dossiê com os gastos de Fernando Henrique e Ruth Cardoso para chantagear a oposição. Nada aconteceu. Agora, a ministra é defenestrada porque surgiu uma testemunha da extorsão praticada pelo filho, com o aval da mãe-ministra e é preciso acalmar a imprensa que quer “prejudicar” Dilma por “preconceito” contra a mulher. Só se for à mulher-Lula.
Em 2006 o presidente surgiu para conter os “aloprados”. Foi assim que Lula denominou os companheiros de partido que se meteram numa grossa enrascada. Eles tentaram comprar com R$1,7 milhão, em dinheiro vivo, um dossiê com supostas denúncias contra o então candidato ao governo de São Paulo José Serra. De maneira indireta visava-se também a candidatura tucana à presidência da República, naquele ano assumida por Geraldo Alckmin. O presidente Lula não conseguiu ganhar no primeiro turno, como todas as pesquisas de opinião indicavam, devido a repercussão do episódio. Havia imagens do dinheiro sobre a mesa. No caso Waldomiro Diniz, havia imagem e som do pedido de propina. Agora, não há imagens e, sem flagrante na televisão, para o povo, não aconteceu. No segundo turno Lula teve uma vitória exuberante sobre Alckmin. Hoje sua popularidade é ainda maior. Nenhuma desgraça parece suficientemente importante para mudar o curso da história.
“Tudo está bem, quando tudo está mal”, dizia Pangloss, personagem de um otimismo exacerbado criado por Voltaire (Cândido, ou o otimismo). Para Pangloss não faltava o que chorar sobre o lado físico e moral das coisas. Mas, existe sempre um outro universo onde tudo acabará bem. Cândido deriva do vocábulo latino “candidatus”, que significa aquele que veste roupa branca – alvo, imaculado, puro, sincero, ingênuo, inocente. Da ingenuidade do povo, para Voltaire, nascia a tirania do Estado e da Igreja, um passo para a degradação moral. Tudo muito atual.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC