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Pesquisa: um olhar agnóstico da Bíblia

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 8 min

A pesquisadora bauruense Mariza Bianconcini Teixeira Mendes lançará, no próximo dia 25, um livro que certamente suscitará debates apaixonados entre os leitores. Em seu trabalho “No Princípio Era o Poder” (Editora Fapesp), a estudiosa se debruça sobre uma obra considerada sagrada por inúmeros povos ao redor do mundo: a Bíblia - mais precisamente, sua parte inicial, denominada pelos cristãos de Antigo Testamento.

Por quase uma década, ela mergulhou a fundo no estudo das “Sagradas Escrituras”. A empreitada resultou numa tese de doutorado que se propunha a realizar “uma análise semiótica das paixões no discurso do Antigo Testamento” (justamente, o subtítulo do livro de Mariza). O trabalho foi defendido recentemente no programa de pós-graduação em lingüística e língua portuguesa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara.

Em entrevista ao Jornal da Cidade, a autora afirmou que os acontecimentos narrados no Antigo Testamento como reais são, na verdade, mitos. Com isso, ela não quer dizer que os eventos apresentados pela Bíblia não ocorreram, mas sim que não se deram exatamente da forma como contam nas Escrituras.

No livro, a pesquisadora tenta enfocar as lacunas e incoerências existentes na narrativa bíblica. Como, por exemplo, Deus pode ter criado a humanidade à sua imagem e semelhança e, pouco depois, escolhido um único povo (os hebreus, à revelia de todos os demais) para realizar seus desígnios na terra? Por trás do programa narrativo do Antigo Testamento, haveria, segundo a pesquisadora, o desejo dos hebreus antigos de subjugar pela violência os povos que viviam ao seu redor.

Se as Escrituras serviam (e, de certa forma, ainda servem) para justificar projetos questionáveis de poder, o correto seria que as abandonássemos de vez? Muito pelo contrário. A autora recomenda às pessoas que estudem a Bíblia, mas faz uma ressalva: “Leiam, mas com moderação”. Acompanhe, a seguir, trechos da entrevista que ela concedeu ao JC.

Jornal da Cidade - Seu livro “No Princípio Era o Poder” se propõe a analisar os discursos do Antigo Testamento. O que existe por trás dos textos bíblicos?

Mariza Bianconcini Teixeira Mendes - O desejo de dominar os outros povos. Segundo o relato bíblico, por volta do ano 1750 a.C., Abrão (que depois teve o nome alterado para Abraão) teria deixado a cidade de Ur, na Mesopotâmia, a mando de um deus chamado Javé, juntamente com o restante do povo hebreu. Naquele tempo, aquela população era nômade e, provavelmente, pagã - ou seja, adorava diferentes ídolos. Quando Javé disse a Abrão para que deixasse a terra de seus pais e adorasse unicamente a ele, estava firmando um acordo com aquele povo.

JC - Em que consistia esse acordo?

Mariza - Por um lado, Javé protegia os hebreus, fazendo com que dominassem os povos ao seu redor. Em troca, recebia o culto de deus único. Precisamos ter em mente que a terra oferecida por Deus a Abraão era habitada por diversos povos, designados genericamente na Bíblia como cananeus, ou seja, os hebreus teriam de tomar pela força aquela herança prometida por Javé. Além disso, adorando essa divindade única, eles seriam premiados com bens materiais. Esse acordo fica bastante evidente nas ocasiões em que Abraão utiliza Sara (antes chamada de Sarai), sua esposa, para acumular riquezas.

JC - Como assim?

Mariza - De acordo com a narrativa bíblica, ao se aproximar do Egito com sua caravana, Abraão temeu que Faraó quisesse matá-lo para poder ficar com Sara, que era uma mulher muito bela. Ele pediu então à esposa que se apresentasse como sua irmã. De fato, os dois eram meio-irmãos, segundo o relato do Gênesis - ou seja, Abraão não mentiu. O estratagema acabou funcionando, e Sara foi levada ao palácio de Faraó. Abraão, por sua vez, recebeu do rei inúmeros presentes: bois, ovelhas, camelos, servos. Antes que Faraó pudesse ter relações com Sara, porém, Deus interveio, mandando graves doenças sobre a corte do Egito. Com isso, Abraão pode deixar o reino, sob a proteção de Javé, acompanhado da esposa e carregado das riquezas que havia recebido. Mais tarde, Abraão voltaria a proceder de forma semelhante no encontro com o rei Abimelec.

JC - Podemos dizer, então, que tudo consistia em acumular riquezas?

Mariza - Sim. Se pensarmos bem, não é absurdo Deus criar a humanidade à sua imagem e semelhança e depois escolher um único povo para cumprir seus desígnios? Mas é disso que trata a Bíblia.

JC - Se esse discurso é absurdo, como consegue sobreviver tanto tempo depois, a ponto de ainda influenciar as vidas das pessoas nos dias atuais?

Mariza - A narrativa se mantém devido ao discurso passional. Não se conquista pela verdade ou pela honestidade do que é narrado. Na verdade, seduz-se quem lê. O Antigo Testamento faz isso utilizando a linguagem figurativa do começo ao fim.

JC - Em que consiste essa linguagem?

Mariza - É uma linguagem que utiliza representações de figuras do mundo natural. Ao se defrontar com um texto, a pessoa se depara com tais figuras e aceita como verdadeiro aquilo que lê. O raciocínio passa então a ser feito de forma figurativa. A partir daí, não interessam mais as lacunas e contradições que a narrativa possa conter. No caso da Bíblia, ela contém um programa narrativo principal em que um destinador sobrenatural, Javé/Deus, faz todas as coisas a partir do nada, por meio de uma enunciação verbal: “Fiat lux”, em latim; ou “Faça-se a luz”, em português. Cria os animais, as plantas, o homem... Por fim, escolhe um povo para desenvolver um programa de organização desse mundo que criou.

JC - Por isso, o objetivo principal por trás da narrativa era dominar os outros povos?

Mariza - Os hebreus tinham não só o direito, mas também o dever de organizar o mundo segundo os desígnios de Javé. No programa narrativo do Antigo Testamento, é possível se identificar três linhas desse projeto de dominação, que, pela teoria semiótica, podem ser denominadas de isotopias do poder.

JC - Como assim?

Mariza - Até hoje, o poder é sustentado pelo tripé: riqueza, conhecimento e força bélica. Ao longo da história, essas isotopias bíblicas serviram para garantir a obediência aos reis, generais e sacerdotes. No Antigo Testamento, elas se cruzam e se repetem em um programa que culmina no reinado de Salomão, tido como o mais próspero da história de Israel. Esse pode ser considerado o ápice da narrativa do Antigo Testamento, quando os hebreus atingem seu momento de maior poder e riqueza.

JC - Na introdução de seu livro, ao comparar eventos narrados no Antigo Testamento (a história de Adão e Eva, por exemplo) a contos de fadas como “Chapeuzinho Vermelho” e “João e Maria”, a senhora afirma que todos “têm a mesma origem mítica”. Isso quer dizer que, para a senhora, os relatos bíblicos não passam de mitos?

Mariza - Sim, pois usam o sobrenatural para explicar acontecimentos do mundo natural. Isso não quer dizer necessariamente que tais eventos não tenham ocorrido. Significa apenas que não se deram do jeito que está narrado na Bíblia. Por exemplo, até hoje a arqueologia não encontrou indícios de que Moisés, Abraão ou Jacó de fato existiram. Não temos como saber se essas pessoas foram ou não reais. O que interessa é que a narrativa que se desenvolveu em torno delas serviu para explicar como os hebreus foram escolhidos por Javé para dominar o mundo. Era uma forma que eles tinham, inclusive, para convencer os outros povos a entregarem suas terras e riquezas sem resistência.

JC - Na sua opinião, por que atualmente o discurso bíblico ainda exerce tamanho poder de convencimento sobre as pessoas?

Mariza - A cada dia que passa, os discursos baseados no mito se tornam mais passíveis de serem desmoralizados. As pessoas dispõem de várias fontes de conhecimentos e têm mais condições de questionar aquilo que é passado a elas.

JC - Mas, para usarmos um exemplo recente, o ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush recorreu à religião para justificar a invasão do Iraque e do Afeganistão...

Mariza - Sim, só que ele foi desmoralizado por aquele cineasta, o Michael Moore, no documentário “Fahrenheit 9/11” (2004). Atualmente, esses discursos míticos já não se sustentam como antigamente.

JC - Se alguém lhe perguntasse se deve ou não ler a Bíblia, o que a senhora responderia?

Mariza - Eu responderia: leia, mas com moderação; tenha espírito crítico e tente buscar a lógica do discurso ali apresentado. Se a pessoa irá tirar dessa experiência algo de útil para sua vida, não importa. O que interessa é que sempre haverá alguém dizendo que teve a vida transformada depois que leu a Bíblia. Como literatura, digo que se trata de uma obra fascinante, assim como também são a “Ilíada”, a “Odisséia” e os contos de fada.

• Serviço

Lançamento do livro “No Princípio Era o Poder: Uma Análise Semiótica das Paixões no Discurso do Antigo Testamento”. Sexta-feira (dia 25), às 19h, na Jalovi Livraria (rua Antônio Alves, 22-75, Altos da Cidade). Mais informações pelo telefone (14) 3224-3600.

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