Tegucigalpa - Oitenta e cinco dias depois de ter sido preso e expulso de Honduras, o presidente deposto Manuel Zelaya voltou clandestinamente ontem a Tegucigalpa, onde se refugiou na embaixada brasileira. Com a notícia, alguns milhares de simpatizantes saíram às ruas da capital, onde entraram em confronto com a polícia. Mais tarde, o governo interino decretou toque de recolher e exortou o Brasil a entregar Zelaya às “autoridades competentes”.
“Viajei durante 15 horas, superando muitos obstáculos porque havia bloqueios, muita perseguição. Graças ao presidente Lula, temos proteção na embaixada do Brasil”, disse Zelaya, que antes tentara por duas vezes, sem sucesso, regressar a Honduras. Zelaya disse que escolheu retornar em segredo à capital do país para evitar fatos de violência.
A chegada de Zelaya ocorreu sem aviso prévio. Pela manhã, a sua mulher, Xiomara Castro, chegou à representação brasileira acompanhada de uma deputada. Ao único diplomata brasileiro em Honduras explicou que seu marido estava do lado de fora e queria se refugiar ali. A entrada do presidente deposto só foi autorizada após consulta ao Itamaraty.
Ao entrar no prédio da embaixada, Zelaya disse querer ficar sob a proteção do Brasil enquanto tenta criar um “diálogo nacional de reconciliação”.
A chegada de Zelaya a Tegucigalpa foi noticiada primeiro pelo canal venezuelano Telesur, controlado pelo governo Hugo Chávez, o principal aliado do presidente deposto.
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que o governo brasileiro tomou medidas para assegurar a segurança de Zelaya, da embaixada e de seus funcionários contatando o secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), José Miguel Insulza, e solicitando apoio ao governo americano.
Com a informação confirmada de que Zelaya estava na embaixada brasileira, o governo golpista decretou toque de recolher das 16 horas locais de ontem até as 7 horas de hoje com o objetivo de “conservar a calma no país”.
Segundo o jornal hondurenho “El Heraldo”, que faz oposição a Zelaya, as Forças Armadas se reuniram na capital para debater o episódio.
Ao mesmo tempo, alguns milhares de simpatizantes se reuniram nas imediações da embaixada brasileira. Zelaya saudou seus seguidores, pedindo “calma”.
A embaixada brasileira está instalada numa acanhada casa residencial adaptada de dois pisos no bairro Colônia Palmira, onde também funciona o setor consular. Normalmente, conta com apenas dois diplomatas, mas atualmente não há embaixador, já que Brasília não reconhece o governo golpista.
OEA
A OEA (Organização dos Estados Americanos) convocou para esta segunda-feira uma reunião extraordinária de seu Conselho Permanente para analisar a situação de Honduras após o retorno ao país do presidente deposto hondurenho, Manuel Zelaya, que está na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. A previsão é de que a reunião do Conselho começasse por volta das 17h30 (horário de Brasília).