Quando vemos iniciativas como as das cidades da região citadas no JC de domingo, 20 de setembro de 2009, surge um fio de esperança em nossos corações e mentes na medida em que é possível ter certeza que as estações ferroviárias ainda são importantes na memória de muitos cidadãos. As estações ferroviárias do nosso Interior são partes integrantes do patrimônio histórico dos municípios, do Estado de São Paulo e do País. Foram a razão do crescimento de muitas cidades, do desenvolvimento da economia estadual e nacional e, mais, testemunhas da história de vida de muitas pessoas. Nem é preciso dizer que merecem ser recuperadas e preservadas. A iniciativa das prefeituras de Dois Córregos, Pederneiras e Lençóis Paulista deve servir de exemplo, pois a verdade é que, se os moradores dessas cidades que guardam parte do patrimônio ferroviário do nosso País não tomar a iniciativa, dificilmente os governos estadual e federal farão alguma coisa pela salva-guarda de tais edificações.
A cidade de Bauru, nestes últimos anos, foi palco de algumas tentativas frustradas de ocupação da Estação Ferroviária da Noroeste (NOB) que, diga-se de passagem, “graças a Deus”, não deram certo. Falamos dessa forma, porque todas as iniciativas, embora cheias de boas intenções, tratavam esse patrimônio como um edifício comum sem considerar, com profundidade, sua condição histórica. Algumas propostas chegaram a sugerir intervenções desprezando sua característica original. Outros edifícios históricos insistem em ficar em pé a revelia dos maus-tratos. É o caso da primeira Estação Ferroviária de Bauru, pertencente à então Estrada de Ferro Sorocabana. Também é o caso da Estação da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Inclui-se nesse rol os edifícios das oficinas da NOB, construídos em 1921; a Rotunda e outros tão importantes como os citados. Não basta apenas preservar os edifícios históricos. É preciso levar em consideração o seu entorno próximo que, certamente, deve fazer parte do processo de preservação.
As iniciativas para salvar edifícios históricos são sempre bem-vindas e a intenção do prefeito Rodrigo Agostinho, estampada na primeira página do Jornal da Cidade deste 22 de setembro, deve ser comemorada. Porém, essa ação do prefeito deve vir respaldada em conhecimentos técnicos específicos. O que queremos dizer com isso? Queremos dizer que reforma não é a mesma coisa que restauração. Queremos afirmar que o patrimônio histórico deve ser tratado diferentemente de uma edificação comum. Em função disso, é que as faculdades de arquitetura, de alguns anos pra cá, incluíram em seus currículos disciplina denominada “Técnicas Retrospectivas”. É nessa disciplina que os alunos vão tomar conhecimento dos fundamentos da preservação do patrimônio histórico no mundo todo; das definições de termos como reforma, restauração, revitalização, etc; das teorias de restauro contemporâneas e, assim, vão aprender como fazer uma intervenção em um bem histórico.
As intervenções em edifícios considerados patrimônio histórico devem primar pela preservação das características originais, pela mínima intervenção, pelo uso de materiais contemporâneos nas adições, porém que sejam compatíveis com o material original e pelas intervenções reversíveis, que não danifiquem o bem histórico. O melhor seria que tais bens sofressem somente intervenções de conservação, mas, diante da situação em que muitos se encontram, dificilmente será possível apenas conservar. Para preservarmos corretamente devemos buscar profissionais habilitados, preferencialmente arquitetos especializados em preservação do patrimônio histórico, que tratarão de todos os aspectos necessários para o resguardo da memória política, social e econômica da Nação. Mas, nada que se diga agora vai empanar o brilho da ótima notícia que o prefeito dá aos bauruenses.
A autora, Ludmilla Sandim Tidei de Lima Pauleto, é arquiteta e urbanista