Não bastaram os milênios de ensinamentos religiosos e nem os avanços da psicologia, a partir do século passado, dando origem ao movimento das relações humanas no trabalho para evitar os conflitos de relacionamento entre patrão e empregado, chefe e subordinado e entre os próprios companheiros de trabalho. Depois que a Justiça do Trabalho passou a acolher processos sobre assédio moral, em pouco tempo, o problema se mostrou bem maior do que se imaginava. As notícias vêm mostrando que o número de processos está crescendo geometricamente. A falta de lei específica sobre assunto, na esfera trabalhista, e a ilusão que a avalanche de treinamento de relações humanas, liderança, qualidade total e de livros e palestras que enriqueceram muitos gurus, encobriam esse tipo de estupidez que prejudica tanto a vítima quanto o agressor.
O assédio moral não é fato recente. Sempre esteve presente no relacionamento humano em que uma das partes possui algum poder sobre a outra e, por alguma razão, a submete a situações que a agridem moral e psiquicamente, sem que ela, por si mesma, possa se defender. É o caso de um chefe que, supostamente, sente-se ameaçado de perder o cargo para um subordinado que tem mais competência profissional do que ele. Usando seu poder de mando, procura, por vários meios, tirar o mérito do subordinado. Sonega-lhe informações necessárias para provocar enganos ou atrasos; atribui-lhe tarefas estranhas às suas obrigações, para descontentá-lo e motivar a sua saída; repreende-o na frente dos companheiros, por falta que não cometeu. Essas e outras formas de humilhação são repetitivas, colocando o subordinado num verdadeiro cerco. Vem daí a expressão “assédio moral”, um cerco psicológico e moral que baixa a auto-estima do subordinado, deixando-o deprimido ou fazendo-o rebelar-se, dando motivo para a sua demissão.
Não há adjetivo mais adequado para qualificar o assédio moral do que estúpido. Para a empresa, ele só traz prejuízo porque diminui a produtividade do empregado e de seus companheiros de trabalho. Seus clientes serão mal atendidos e, em caso de processo, o ônus será dela. Para o empregado é um sofrimento ao qual tem que se sujeitar pensando na família, para não perder o emprego. Fica ansioso, depressivo, tem insônia, perde a concentração. Se rebelar-se, o que pode acontecer, é demitido e prejudica a sua recomendação para outro emprego. E para o agressor também só traz prejuízo. A fama de perseguidor, de quem quer encobrir a incompetência, desqualificando os subordinados e o não cumprimento de metas perante a administração, em vez das promoções esperadas ficará congelado ou será demitido. É coisa que só estúpido pode fazer.
Não há razão, lógica ou de bom senso, que possa justificar o mau trato ou perseguição ao empregado, ao subordinado ou ao prestador de serviço. Não porque eles sejam impecáveis. As duas partes são humanas, com as mesmas virtudes e as mesmas fraquezas. Mas são humanas e devem ser tratadas com a consideração que lhes é devida. Para os erros, há meios de evitá-los e de corrigi-los sem ofensas ou agressões. Se o empregado comete erros, a obrigação de seu superior, patrão ou chefe, é apurar as causas. Sendo falta de perícia ou de conhecimento, a solução é treiná-lo. Sendo incúria ou falta proposital, a solução é a aplicação das sanções disciplinares legais. Mas é preciso ir além disso por atitudes preventivas e proativas. Criar um ambiente de trabalho respeitoso e saudável, treinar previamente para as responsabilidades que serão assumidas, reconhecer o mérito e dar oportunidade de assumir posições de maior responsabilidade, são o substituto ideal da estupidez pela inteligência.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras