Economia & Negócios

1º dia de greve fecha 62% dos bancos

Por Tisa Moraes | Com Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

No primeiro dia de greve dos bancários de Bauru, ontem, 62% das instituições financeiras públicas e privadas da cidade decidiram paralisar suas atividades por tempo indeterminado. Do total de 47 agências existentes, 29 fecharam suas portas, mas os terminais eletrônicos continuam funcionando normalmente.

Até as 16h de ontem, decidiram aderir à greve todas as unidades do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal (CEF), HSBC, Mercantil, Safra e Unibanco. Aderiram parcialmente os bancos Itaú (que mantém as agências dos Altos e Centro fechadas), Nossa Caixa (com apenas as unidades da Bela Vista e do Fórum abertas) e Santander/Real (que permanece somente com a agência da avenida Duque de Caxias em funcionamento). Até o momento, ainda resistem ao movimento o Bradesco e o Banco Rural, mas este panorama pode mudar ainda hoje.

De acordo com informações do Sindicato dos Bancários, 69% dos 1.030 funcionários já cruzaram os braços. Mas a partir de hoje, a intenção é consolidar o movimento na cidade e expandi-lo para os cerca de 40 municípios que integram a base sindical de Bauru.

“Não havendo novas propostas dos banqueiros, a greve será mantida amanhã (hoje) e, na semana que vem, deve continuar com toda força. Já montamos um operativo para ampliar a paralisação em cidades importantes da região”, destaca o diretor do sindicato da categoria em Bauru, Marcos Lenharo. Ainda ontem, as agências da CEF e Nossa Caixa de Lençóis Paulista e CEF de Avaré já haviam suspendido suas atividades.

Segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), a greve foi aprovada em todas as capitais, no Distrito Federal e na grande maioria das bases sindicais do Interior, mas não há estimativa do volume de adesões. De acordo com os bancários, o movimento só acabará quando uma nova proposta que contemple as reivindicações da categoria for apresentada.

As principais cláusulas econômicas reivindicadas são 30% de reajuste salarial (referente à inflação do último ano, mais reposição das perdas salariais desde 1994) e que a participação nos lucros e resultados (PLR) seja de 25% do lucro líquido dos bancos distribuída de forma linear a todos os trabalhadores, além de parcela adicional. Além disso, os bancários também solicitam contratação de mais funcionários, fim de metas abusivas e proteção ao emprego em casos de fusões.

Procurada pela reportagem, a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) criticou a greve e disse que nunca abandonou a mesa de negociação. Por intermédio de sua assessoria de imprensa, a entidade afirma que apresentou, no último dia 17, proposta para a Convenção Coletiva 2009/2010 e ainda aguarda manifestação da categoria, já que não teria recebido resposta oficial dos sindicatos para dar prosseguimento às negociações.

Até agora, os bancos ofereceram reajuste de 4,5% nos vencimentos e participação nos lucros de 4%, acrescida de um valor fixo de R$ 1.500,00. Não há novas rodadas de negociação agendadas, mas às 16h de hoje, os trabalhadores realizam nova assembléia para avaliar e determinar os rumos do movimento.

‘População não é o alvo’

Deflagrada ontem, a greve dos bancários, apesar de surpreender boa parte dos correntistas, que - exceto nos serviços realizados pelos terminais eletrônicos - não conseguiram ser atendidos pelos bancários no interior das agências, não visa usar eventuais transtornos aos usuários das agências para pressionar as direções das instituições, segundo representante do Sindicato dos Bancários de Bauru e Região.

“Não queremos prejudicar os clientes”, antecipa Carlos Alberto Castilho, o “Beto”, diretor da entidade. “No entanto, precisamos mostrar nossa insatisfação junto ao governo e aos banqueiros”, alerta.

Apesar de destacar a sintonia da base local com os demais sindicatos do País, com o início simultâneo do movimento reivindicatório, Beto discorda do pleiteado pelas entidades representantes de classe filiadas à Central Única dos Trabalhadores (CUT), que, afirma, pedem correção salarial de 10%, referentes a perdas decorrentes de inflação.

“10%, para nós, é uma traição”, dispara o diretor do sindicato bauruense, filiado à Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas). “Em Bauru sempre estivemos na vanguarda e, desta vez, todos iniciaram a greve ao mesmo tempo”, elogia. “Mas queremos reposição integral das perdas salariais em 30%”, diferencia o sindicalista.

Ontem, ao menos na agência central da Caixa Econômica Federal (CEF), apenas os serviços disponibilizados no setor de auto-atendimento era acessado pelos clientes. Outras atividades bancárias, como autenticação de movimentações financeiras, de acordo com o representante sindical, ainda eram uma incógnita se seriam garantidas ou não.

“As máquinas recebem os depósitos, mas não há garantia de autenticação”, salienta Castilho, ao reforçar que a greve não tem os clientes como “alvo”. “Não temos o objetivo de inviabilizar o atendimento”, reitera.

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Clientes dividem opiniões sobre paralisação

Alguns correntistas que foram às agências ontem pela manhã alegaram terem sido pegos de surpresa com as portas fechadas no primeiro dia da greve dos bancários. Apesar do movimento ser tranqüilo em frente à agência central da Caixa Econômica Federal (CEF), instantes após o início do expediente bancário, clientes reclamaram da falta de funcionários para atender fora dos terminais eletrônicos.

Morador de Pirajuí, o trabalhador rural Edson Aparecido Chaves veio ontem à agência de Bauru para resolver problemas com a senha de seu “cartão cidadão”, necessário para obter informações sobre FGTS, PIS, bem como saque de benefícios. Mais que a viagem em vão, já que não conseguiu atendimento, ele reclama ter perdido um dia de serviço. “Perdi minha senha e tive que vir para cá. Já gastei com passagem e, além do dia perdido, vou perder outro, porque terei que voltar para resolver o problema.”

Chaves, que trabalha no controle de pragas em lavoura de laranja, apesar de achar justo que os bancários reivindiquem melhores salários e condições de trabalho, é contra reflexos diretos sobre a população. “Acho uma palhaçada”, protesta. “Que deixem uma parte dos funcionários para atender a população”, sugere.

Com a mesma indignação, a atendente Carla Fernandes também deixou a agência central da CEF sem atendimento. Com dinheiro na poupança, ela diz que a única alternativa que tinha para saque era por meio do contato direto com algum funcionário, já que ainda não possui o cartão magnético para a movimentação. “Ainda não recebi o cartão e não tenho como sacar. Fiz um acerto do meu serviço na semana passada e coloquei o dinheiro na poupança.”

Por outro lado, o movimento também é compreendido. “Desde que a greve seja pacífica e eles (bancários) reclamem o que é justo, sou a favor”, manifesta-se o aposentado José Santa Maria, que ontem pela manhã, utilizou os serviços disponibilizados nos terminais eletrônicos.

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