Uma espera que poderia durar anos, hoje não passa de semanas. Em alguns casos, poucos dias. A fila de pacientes aguardando transplante de córneas foi zerada anteontem em Bauru. A última pessoa a entrar na fila, o idoso Geraldo Crescêncio, 77 anos, morador de Jaú, esperou apenas algumas horas para ter a confirmação de sua cirurgia.
Em 2004, o Hospital Estadual (HE) de Bauru iniciou o serviço de captação de órgãos. Desde então, foram efetuadas 340 captações, que resultaram em 680 transplantes. Somente no HE foram realizados 143 transplantes de córnea em três anos. A assistente social Márcia Vilma Silva, supervisora da unidade psicossocial e coordenadora da captação de órgãos da unidade de saúde, conta que há quatro anos a pessoa inserida na lista geral do Estado para receber uma córnea esperava até dois anos para conseguir o transplante. Hoje, não passa de duas semanas.
“A redução vinha sendo gradativa. Em 2005, mais de cinco mil pessoas aguardavam uma córnea em todo Estado. Neste mês, eram apenas 250”, conta. Toda córnea captada é enviada a algum banco de olhos, que remete o tecido para a unidade de saúde onde está a próxima pessoa a receber o transplante. De acordo com Márcia, a fila passou a oscilar em números cada vez mais baixos por conta do aumento de doações.
Para a assistente social, manter o assunto em evidência leva as pessoas a conversarem sobre a doação de órgãos. Assim, em um simples bate-papo, os familiares ficam sabendo se a pessoa gostaria ou não de ser doador. “Saber a vontade do familiar ainda é o principal entrave para as captações”, explica. Mas ela ressalta que o fato de zerar a fila não significa que não é preciso mais doar órgãos. “Foi muito difícil chegar até aqui. Mas agora precisamos manter as boas condições”, diz.
Para a oftalmologista Érika Christina Canarin Martha de Pinho, chefe da equipe de transplante de córneas do HE, acabar com a espera pelo tecido foi possível por conta da união de esforços. “É o resultado de um conjunto de ações: melhoria no sistema de distribuição de córneas no Estado, trabalho em conjunto dos bancos de olhos e intensificação nas cirurgias.”
Mesmo com a fila zerada, ela lembra que muita gente ainda vai precisar de doações. “Há pacientes passando por processo de avaliação para verificar se o transplante é viável. Mas eles não vão esperar mais do que quatro semanas. O que acabou foi a demanda reprimida.”
Úlceras, distrofias, cicatrizes e degenerações são os problemas que mais levam à necessidade de transplante. A maioria dos pacientes passou dos 40 anos, mas Érika conta que já fez transplantes em bebês, crianças e idosos. A médica destaca que a rapidez para se conseguir o tecido é essencial para garantir o sucesso da operação. “Se o paciente esperar muito, ele terá a sua condição ocular agravada. Agora, com espera mais curta, o resultado pode ser melhor, além de diminuir o risco de rejeição”, explica.
Cirurgia
Última pessoa a ser inserida na lista de espera por córnea no HE, Geraldo Crescêncio, de 77 anos, esperou poucas horas pelo tecido. Ele foi inscrito na fila quarta-feira pela manhã e no final da tarde do mesmo dia recebeu a notícia que havia uma córnea disponível. A cirurgia está marcada para a próxima quarta-feira, dia 30. Geraldo possui uma úlcera no olho direito. Ele esteve ontem no HE para a consulta e exames necessários para o procedimento.
“Sempre tive problemas na visão e me falaram que talvez o transplante pudesse ajudar. Há 20 anos, a espera passava dos cinco anos. Agora, o processo está mais rápido”, diz. Ele afirma que não está preocupado com a cirurgia. “Vou internar na terça-feira e sair na quinta”, conta.
Homenagem
O Dia Nacional do Doador de Órgãos e Tecidos é comemorado dia 27, mas o Hospital Estadual (HE) de Bauru adiantou a celebração e, amanhã, recebe, a partir das 9h, familiares de doadores para uma homenagem. Neste ano, foram convidadas 301 famílias de doadores e 14 receptores. Os próprios receptores de órgãos farão homenagens às famílias doadoras. Além das homenagens, haverá plantio de ipê amarelo, árvore que simboliza a vida.
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Caminhada
A Comissão em Prol da Doação de Órgão e Tecido para Transplante do Hospital de Base de Bauru realiza amanhã uma caminhada para estimular as pessoas a informarem a seus familiares o desejo de doar órgãos. Atualmente, quem decide sobre a doação de órgãos é a família, que precisa saber qual era o desejo do parente.
Na maioria das vezes, se a vontade nunca foi manifestada, a tendência dos familiares é negar a retirada de órgãos e tecidos. A caminhada tem o objetivo de estimular a população a conversar sobre o assunto. O evento terá partida no Centro, às 10h, da Praça Machado de Mello com destino à Praça Rui Barbosa, pelo Calçadão.
De acordo com a enfermeira Roberta Cardoso dos Santos, da equipe de organização da caminhada, o Hospital de Base responde por cerca de 40% das captações de órgãos na região. A caminhada em prol da doação de órgãos contará com apresentação da Banda Marcial do Colégio São Francisco.