Brasília - Questionado ontem em Pittsburgh (EUA), onde participa de reunião do G20, sobre a nota do governo golpista de Honduras que acusa o Brasil de ter arquitetado o retorno do presidente deposto Manuel Zelaya, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi sucinto: “Vocês têm que acreditar num golpista ou em mim”.
Em Brasília, o chefe do Departamento de América Central e Caribe do Itamaraty, embaixador Gonçalo Mourão, disse que o Brasil se recusa a receber a nota do governo de fato de Honduras porque não o reconhece como governo de direito.
“O Brasil entende que o presidente é o sr. Manuel Zelaya, não quem deu um golpe de Estado”, disse Mourão.
Acusação
O governo interino de Honduras afirmou ontem que houve “evidente intromissão” do Brasil “nos assuntos internos” do país na acolhida do presidente deposto, Manuel Zelaya, na embaixada brasileira em Tegucigalpa e que, por isso, o governo brasileiro é responsável não só pela segurança do hondurenho como pela de todas as pessoas e propriedades que estiverem envolvidas no caso.
O comunicado da Secretaria de Relações Exteriores de Honduras possui tom grave e conclui que ocorreu a intromissão apenas com base em uma declaração de Zelaya na qual ele afirma ter “consultado” o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler Celso Amorim sobre a sua viagem. Para o governo interino, isso prova que a entrada ilegal de Zelaya em Honduras foi “um ato promovido e consentido pelo governo do Brasil”.
Carter como mediador
Roberto Micheletti, convidou o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter (1977-1981) para mediar o conflito entre ele e Manuel Zelaya,.
A informação foi dada pela porta-voz de Carter, Deanna Congileo, que disse que o ex-presidente não aceitou o convite e expressou apoio ao mediador apontado pela Organização dos Estados Americanos (OEA), o presidente da Costa Rica, Óscar Arias. O democrata está à frente do Centro Carter, em Atlanta, que atua como observador em eleições e medeia crises internacionais.
O convite de Micheletti a Carter teria sido feito depois de o ex-presidente telefonar para os golpistas e se oferecer para ajudar.
Negociações já começaram
Ontem, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, disse que ele já começou a negociar com o governo interino de Roberto Micheletti para encontrar uma “saída pacífica” para a crise política e diplomática do país.
Zelaya revelou que na noite de quarta-feira conversou com “um representante do governo de facto”, que não quis identificar. “Não avançamos nada devido à posição inflexível que têm (os membros do governo de facto)”, mas o encontro foi “positivo”, estimou Zelaya.
Manifestações contra Zelaya
Milhares de pessoas ocuparam ontem as ruas de Tegucigalpa para apoiar o governo de fato em Honduras, dirigido por Roberto Micheletti, e repudiar a volta de Manuel Zelaya, aos gritos de “Lula, Lula, leva esta mula”, em referência à presença do presidente deposto na embaixada do Brasil.